Crônica: O Olhar do espectador comum

Crônica
O olhar do espectador comum

Ontem fui a um ótimo painel sobre artes visuais - Um Ponto de ironia – organizado pela Fundação Vera Chaves Barcellos, onde falaram os professores Paulo Silveira e Felipe Scovino. Achei muito interessante a explanação e senti como faz falta a educação do olhar. O espectador comum, como eu, tem pouco conhecimento sobre o que esta vivenciando. Há muito tempo que desisti de entender a arte, adoro visitar exposições, mas como uma experiência sensorial, como comer um bolo. Não busco num bolo o seu significado, mas o sabor, a textura, a cor, o aroma, a sensação. Sempre penso: já que vou engordar com este bolo, pelo menos busco engordar com satisfação , detesto comer um bolo ruim, não vai me trazer a satisfação que eu queria e vai restar só os quilinhos a mais. É preciso comer o bolo ruim para apreciar o bolo bom. Fernando Pessoa já dizia “come chocolates, pequena … Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes...” em Tabacaria. No caso da arte não sei o que é bom e o que é ruim. Mas sei que algumas experiências me deixam leves e outras pesada. Por exemplo, ontem alguém citou o trabalho de Goya, e me veio uma lembrança: há alguns anos houve uma exposição de gravuras dele, eu soube pelo jornal, li só a manchete, então imaginava que iria chegar no museu e encontrar enormes telas com belos retratos coloridos e fui surpreendida por uma enorme coleção de gravuras do horror, que retratavam uma sociedade doente, malévola, deformada. Sai do museu e olhei para a rua, havia um grande jogo , acho que da Copa Libertadores da América, Porto Alegre estava transtornada, num clima de agitação, as ruas lotadas - pego o ônibus na Mauá - e por ali passavam legiões de ônibus lotados e cheios de um povo que parecia estar indo para uma batalha, batiam na lataria dos coletivos, soltavam gritos de guerra e foguetes. As imagens do museu pareciam ter tomado as ruas, o centro da cidade cheirava a adrenalina, pólvora, urina, fuligem. Pude imaginar os calabouços medievais sendo abertos. O impacto sobre mim foi muito forte, como uma pancada , como um desvelamento, tudo isso ainda acontece. É de nós que emana aquela energia e deformidade. Ou nossa natureza esconde também um pouco do horror. Será que nós não sentimos o odor dos presídios, a sua crueza, a sua barbárie e não desviamos o olhar, como deviam fazer os nossos ancestrais medievais? A mórbida etiqueta num corpo desconhecido para mim é uma denúncia, a ironia é que a gente não se choca mais. Como na poesia, quando tudo é permitido acabamos perdendo os parâmetros e ficamos livres para sentir. Voltando a um pequena confissão, sou natural de Cachoeira do Sul e a poucas semanas estive no museu visitando os trabalhos da bienal e ao entrar numa das salas voltei no tempo, ouvi uma velha canção entoada e me deparei com as “Águas Dançantes”, as vozes da minha infância, a beleza, a magia da minha terra estava ali. Senti na pele o calor e os pinguinhos do que a exposição não podia mostrar, quando o vento bate nas águas elas banham o espectador. Para mim ali tinha um encantamento. Não sei qual era o objetivo, qual era a proposição , mas este “Bolo” para mim foi surpreendente. Ganhei o dia, como dizem os trabalhadores. Acho que quando se escreve ou se expõe algo sempre há uma intervenção. As vezes só precisa um pouco de vento.

Fernanda Blaya Figueiró

Comments

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