Presunto Gordo!
Não sei exatamente porque penso nisso nos últimos dias. Uma vez, há muito, muito tempo atrás como gostam os contadores de histórias, fui ao supermercado, a pedido de uma pessoa. Com uma missão, supostamente simples: comprar meio quilo de queijo e meio quilo de presunto. Hoje eu meço um metro e cinquenta e sete, com os cabelos esticados, então na época devia medir um metro e vinte. Cheguei no supermercado e fiquei na fila, que andava e ninguém me enxergava, até que a fila terminou e fiz o pedido. Para meu desespero a missão não era das mais simples. A moça me perguntou sem muita paciência gordo ou magro? Ei garota! O presunto quer do gordo ou do magro? Imediatamente disse: magro. Eu era gorda e ser gordo era algo odiável, desprezível, medonho. Quase um crime contra alguma imagem pré estabelecida. Quando voltei ouvi toda a forma de insultos: - Mas como presunto magro, isso é horrível! Não dá para nem para cumprir uma simples ordem. Onde já se viu isso é cosia de pobre( segunda coisa mais desprezível depois de gordo). Bom, voltei e tive que desfazer o engano. Como eu poderia imaginar que no caso do porco e do presunto ser gordo era uma qualidade? Lembro dos porcos na fazenda de meu avô confinados num chiqueiro pequeno e imobilizados pelo peso e de como os adultos falavam orgulhosos do peso que tal raça atingia, da cor rosada de sua carne, do lucro que gerava. Lembro da delícia que é um torresmo quentinho e da enorme quantidade de gordura que resulta. Nunca imaginei que um adulto que venerasse a magreza pudesse idolatrar o presunto gordo, e fazer dele o grande ingrediente de suas poderosas iguarias. Outro dia escrevi sobre a vontade e mais a necessidade de se desfazer das histórias tristes e incomodas. Mas, de tempos em tempos elas retornam a mente da gente. Como pode, algo que talvez tenha acontecido há trinta anos, tomar uma força e uma sensação de presença tão forte. Acho que isso é uma armadilha da mente. Pensei se deveria ou não escrever sobre isso. Inicialmente achei que não, mas deixaria esta “lembrança” voltar par seu lodo e ficar lá remoendo. O que mais me incomodou neste episódio, na época, foi a minha paralisia, a minha falta de reação. A minha falta de mecanismos de defesa. Hoje acho que presunto gordo é bom e o magro é mais saudável... Refleti um pouco sobre isso e me veio a imagem do fim do livro A insustentável leveza do ser. “- Missão , Tereza, é uma palavra idiota. Eu não tenho missão. E é um alívio imenso perceber que somos livres, que não temos missão.” Milan Kundera. Mas, naquele dia fui até a praia, para chorar um pouco, o mar estava tão lindo à luz do entardecer, que o presunto caiu num “falso” esquecimento. O mar me devolveu para a areia e disse: “Vai dar tudo certo!” E até hoje confio nele. Por pior ou mais nublado que o tempo esteja no fim vai dar certo e o sol vai aparecer. Sei lá se foi certo escrever sobre isso, ou se vou me livrar desta memória absurda...
Fernanda Blaya Figueiró
Não sei exatamente porque penso nisso nos últimos dias. Uma vez, há muito, muito tempo atrás como gostam os contadores de histórias, fui ao supermercado, a pedido de uma pessoa. Com uma missão, supostamente simples: comprar meio quilo de queijo e meio quilo de presunto. Hoje eu meço um metro e cinquenta e sete, com os cabelos esticados, então na época devia medir um metro e vinte. Cheguei no supermercado e fiquei na fila, que andava e ninguém me enxergava, até que a fila terminou e fiz o pedido. Para meu desespero a missão não era das mais simples. A moça me perguntou sem muita paciência gordo ou magro? Ei garota! O presunto quer do gordo ou do magro? Imediatamente disse: magro. Eu era gorda e ser gordo era algo odiável, desprezível, medonho. Quase um crime contra alguma imagem pré estabelecida. Quando voltei ouvi toda a forma de insultos: - Mas como presunto magro, isso é horrível! Não dá para nem para cumprir uma simples ordem. Onde já se viu isso é cosia de pobre( segunda coisa mais desprezível depois de gordo). Bom, voltei e tive que desfazer o engano. Como eu poderia imaginar que no caso do porco e do presunto ser gordo era uma qualidade? Lembro dos porcos na fazenda de meu avô confinados num chiqueiro pequeno e imobilizados pelo peso e de como os adultos falavam orgulhosos do peso que tal raça atingia, da cor rosada de sua carne, do lucro que gerava. Lembro da delícia que é um torresmo quentinho e da enorme quantidade de gordura que resulta. Nunca imaginei que um adulto que venerasse a magreza pudesse idolatrar o presunto gordo, e fazer dele o grande ingrediente de suas poderosas iguarias. Outro dia escrevi sobre a vontade e mais a necessidade de se desfazer das histórias tristes e incomodas. Mas, de tempos em tempos elas retornam a mente da gente. Como pode, algo que talvez tenha acontecido há trinta anos, tomar uma força e uma sensação de presença tão forte. Acho que isso é uma armadilha da mente. Pensei se deveria ou não escrever sobre isso. Inicialmente achei que não, mas deixaria esta “lembrança” voltar par seu lodo e ficar lá remoendo. O que mais me incomodou neste episódio, na época, foi a minha paralisia, a minha falta de reação. A minha falta de mecanismos de defesa. Hoje acho que presunto gordo é bom e o magro é mais saudável... Refleti um pouco sobre isso e me veio a imagem do fim do livro A insustentável leveza do ser. “- Missão , Tereza, é uma palavra idiota. Eu não tenho missão. E é um alívio imenso perceber que somos livres, que não temos missão.” Milan Kundera. Mas, naquele dia fui até a praia, para chorar um pouco, o mar estava tão lindo à luz do entardecer, que o presunto caiu num “falso” esquecimento. O mar me devolveu para a areia e disse: “Vai dar tudo certo!” E até hoje confio nele. Por pior ou mais nublado que o tempo esteja no fim vai dar certo e o sol vai aparecer. Sei lá se foi certo escrever sobre isso, ou se vou me livrar desta memória absurda...
Fernanda Blaya Figueiró
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