Crônica - o Fóssil

O Fóssil!
Era uma vez uma antiga e abandonada Carteira, que vivia perdida e empoeirada no fundo do fundo de um armário, sob pilhas de papéis, fotografias e documentos. Até que um dia ela viu a luz amarelada da escrivaninha. Com o coração batendo aceleradamente, as faces ruborizadas e um olhar enigmático sua dona a contemplava. Ao abrir o documento e vislumbrar a antiga fotografia ela quase não se reconheceu. Hesitante partiu com o documento na bolsa para seu importante compromisso.
-A senhora tem experiência neste ramo?
-Não!
-Porque a senhora decidiu procurar esta empresa?
-Porque ando cansada de trabalhar por conta e gostaria de mudar um pouco.
-Por conta?
-É. Eu produzo e vendo produtos artesanais e conto histórias.
-A senhora pode começar segunda?
-Como assim, eu consegui o emprego??
-Sim! Vamos fazer um contrato de experiência... A senhora quer mesmo trabalhar?
-Mas é claro... é que todo mundo dizia que eu não ia nunca conseguir... Que ninguém ia me contratar para nada.
-Segunda então, fica bom?
-Ótimo!
-A sua carteira, por favor!... Se a senhora não largar eu não posso pegar...
-Claro, eu tenho que largar, né? Será que eu não tenho que fazer outra?
-Não, esse documento não vence... Aqui tem o registro de seus outros empregos... A senhora pode largar?
-Posso!... É que tá guardada há tanto tempo.
-Sei!... Olha! Que bela foto, a senhora hein!!
-Isso faz tempo!!!
-Então sua carteira vai passar a contabilidade... Vejamos se tem todas as folhas...
-Tem todinhas!
-E esse caroço?
-Caroço? Onde? Deixa eu ver!
-Parece uma traça... Ou o fóssil de uma traça...
-Nem tinha notado!! Isso estraga a carteira?
-Não!... Mas eu nunca tinha visto algo assim!
-Posso ficar com o fóssil?
-Pode, mas a senhora vai fazer o que com isso?
-Guardar de recordação... Sabe mocinha que muita gente tem vergonha de trabalhar... Você não imagina o que eu já ouvi por estar procurando este emprego... Parece que eu tô cometendo um crime...
-Eu que sei! Comecei aqui limpando o chão... estudava no turno inverso... fiz mil e quinhentos cursos e passei por quase todos os departamentos. Eu entendo bem a senhora! Mas, nunca esquentei a cabeça com isso... Agora estou aqui gerente de RH de uma das maiores empresas do estado. No fim deu tudo certo. Sempre dá tudo certo!
-Sabe duma coisa? Vou jogar esse fóssil pela janela e libertar ele e a mim mesma.
- A senhora faz muito bem!

Minha homenagem a todos os trabalhadores, formais ou informais, e a todas as formas de trabalho. Em especial a uma grande amiga que me emprestou este relato(ou algo semelhante a ele) mas que não quer ser identificada, admiro muito sua coragem e capacidade de reação.

Fernanda Blaya Figueiró
22 de abril de 2011 para o Dia do Trabalho

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