Poema- Quarenta foram os dias de Cristo no deserto

Quarenta foram os dias de Cristo no deserto
Quarenta e nove os de Sidarta ao pé da figueira

Primeiro dia de quaresma no deserto urbano
Num canteiro da Praça há uma árvore-toca
Toca uma cantiga andina e crianças cantam em algum outro lugar
O vento desfolha suavemente a emblemática planta
Espalhando pequenas flores e
As cinzas do Carnaval
O verão continua poderoso e ardente enquanto o outono aguarda nas coxias
Velhas fachadas aceitam modernas estruturas e convivem com projetos inacabados.
O mercado fervilha!

Devo advertir que no feriado li Eliot. Tentei ao menos.

Ninguém mais jejua ou faz recolhimento pela passagem no deserto
Mesmo sendo igual a todo mundo vou deixar a areia invadir minha mente
A aridez do sol marcar minha pele e a secura correr minhas veias.

Em uma outra quadra bradava um pregador estranho: Verá! Se você não se converter, a morte. A morte vai lhe alcança... Pobre criatura tentando os passantes ocupados.

Caro poeta, também eu já estive entre os espíritos. Muitas foram as vezes que entre eles estive. Na versão feminina da comunhão com os espíritos a sensação física é de não haver mais limites, precisamente na nuca. Pescoço, ombros e braços perdem a sua definição, viram a abertura para o mundo além do físico, suas linhas não mais são.
É Maria quem fala por mim. São dela as palavras e a luz. Eu, viro ela, ela vira nós. Falo sobre e vejo a pessoa que habita meu corpo físico como uma terceira pessoa, um corpo abandonado. Não! Assim não pode ficar então aterrizo e volto a ser, sem sombra de dúvidas, quem sempre fui. A única dúvida que fica é: este ser que habito a milênios pertence ao mundo dos vivos ou dos mortos? Haverá esta distinção ou essa experiência é continua.

“Como! Tu por aqui?” TS Eliot em Little Gidding /II

Perdão amigo, mas não há guerras declaradas em minha existência... Acho que pouco entendi de seus quartetos. Nem da areia do deserto ou da pesada sombra da figueira. Todas essas coisas são complicadas demais. Porém a mensagem da mãe espiritual do meu mundo, Maria, lembro palavra por palavra: "- Antes de partir deixe tudo arrumado..." As revivi, recentemente nas telas do cinema, na voz de um personagem emocionante. É preciso estar sempre em estado de prontidão. O encontro pode ser na outra esquina, ou ao raiar do dia.

Fernanda Blaya Figueiró
9 de março de 2011

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