Crônica - O poder das palavras

O poder das palavras

De uns tempos para cá tenho observado o impacto que algumas palavras causam nas pessoas e também o preconceito que algumas carregam. É possível alguém odiar, com uma força dramática, uma palavra? Acredito que sim. Hoje estava em um ônibus e entrou uma moça, usava uma pintura facial e roupas como se estivesse no filme Avatar. O cobrador pediu a sua passagem e descobriu que ela não tinha dinheiro para a viagem. Alegou que era doente, e seu aspecto físico parecia confirmar esse fato, assim teria o direito de andar gratuitamente. O cobrador, fazendo seu trabalho, pediu a ela que descesse e pedisse a um fiscal que autorizasse seu embarque. Uma breve discussão entre eles acabou numa sucessão de xingamentos por parte da moça . Lembro de alguns: - Seu destruidor de gente! Seu diabo! Isso, você é um diabo!A passageira enfurecida desceu amaldiçoando o cobrador e deixou um clima muito ruim entre todas as pessoas que continuaram no veículo, provavelmente aplicava um pequeno golpe por isso se recusava a procurar o fiscal. A moça concentrou todo o seu ódio do cobrador, da empresa, do sistema, de sua suposta doença, de sua frustração nas palavras que proferiu transtornada. Li na última edição do CR que quem acumula muito ódio acaba sofrendo de doenças do fígado, imagino que essa moça se não é logo estará doente. Provavelmente aquelas pessoas nunca mais se encontrarão, mas a energia negativa que geraram vai ficar por um bom tempo circulando entre nós. O preconceito que algumas palavras carregam é muitas vezes gerado pela distorção de seus conceitos. No caso da palavra diabo não, pois ela reúne o que há de pior no pensamento humano, o que mais nos aterroriza. Pessoas que mal se conhecem podem carregar um ódio consigo em eventos tão banais como este? Palavras como Capitalismo, Comunismo, Técnica, Ignorância, Fofoca, Perfeccionismo, Desleixamento, causam impactos diferentes em cada pessoa. Para um poeta este é um assunto primordial pois vivemos das palavras e nunca sabemos como elas vão atingir o outro. Chego a conclusão que é quase impossível passar pela vida sem sofrer ou ter alguns preconceitos. Já passei por inúmeras situações em que senti que havia no outro e em mim um certo preconceito e aprendi a contorná-las ou aceitá-las. Por exemplo nos dias de hoje não dirigir é um grande problema, inúmeras vezes já me peguei justificando que eu sei dirigir e que não o faço por opção, não a bela opção pela salvação do planeta, mas pela minha distração cada dia maior. Um alguns meios dizer que pegou um ônibus é quase como confessar que está com a peste negra. O olhar e a postura das pessoas já muda. Demonstrar muito conhecimento também pode levar a um sério problema de relacionamento, bem como demonstrar não ter conhecimento. No fundo fiquei com muita pena da moça e do cobrador o dia podia ter sido bem melhor para os dois. Para a minha angústia porém foi elucidativo, as pessoas que odeiam uma palavra , odeiam todo o contexto a que esta palavra esta associada. Odeiam ou temem? O que será que significa a frase: – Você é um destruidor de gente! Ou : -Você é o Diabo. Talvez seja você está tornando a minha vida um inferno, você está me destruindo. Ora sabemos bem que a vida é construída por nós mesmos, são as nossas escolhas, as nossas atitudes que conduzem a nossa embarcação. O universo nos dá aquilo que pedimos, as vezes estamos num lamaceiro, outras em um mar de rosas, o bom seria saber que a lama faz bem para a pele e que as rosas tem espinhos. Nada é perfeito, ou talvez seja tudo absurdamente perfeito. Me sinto totalmente livre para usar qualquer palavra sem preocupação, o impacto que a palavra carrega estará na leitura que o outro é capaz de fazer.
Fernanda Blaya Figueiró
18 de março de 2011

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