Vazio é possibilidade
A loucura tem um lado muito sedutor. Só quem já beirou a ela, quem já trilhou o chão sem chão, já parou o tempo, já viu o que ninguém mais vê. Só quem já duvidou, profundamente. Quem sentiu a dor no peito, a garganta seca. Dizem que os loucos se reconhecem e afirmo que isso é verdade. Pior do que se permitir uma loucura é se abster dela. Andar entre eles e fingir. Fingir que também é um. Pior disso é reconhecer neles, os não loucos, alguma coisinha de loucura. E querem enganar a mim. Ficam dizendo, olha! eu não sou assim! Viu? Eu só tô brincando... Você sabe, né? Oh!, digo, sei sim. E dou corda. Com ela não se brinca. Então eles vão indo, indo, indo e quando ela os pega , mas pega pra valer, ficam pelos cantos como cãezinhos que colocaram o focinho na tomada. Dizem, louco? Eu? Não! E sem saber se bandeiam para o lado de cá. Só que ela é terrível, os abandona. Eles ficam cheios de uma razão, racional. Então, nós, os autênticos ficamos olhando, olhando. Eles passam e dizem não os conheço. Como não se contraria os loucos respondemos, não! Nos aventuramos dentro de nossa loucura, nos entregamos a ela e fazemos reverência quando aparece.
Eles se desesperam, se agarram a sua razão e sua sanidade. Nós? Não! Ela tem muitos desejos e vai embora quando quer, volta quando quer. Não bate a porta, não manda anúncio. Não cobra nada, nem dá também. Quem matou Abel? Todo mundo sabe, foi Caim! Abel era um de nós. Caim um deles! Os novos loucos deste centro tem um atributo, a maldade. Com essa é bem difícil de lidar. Com essa é preciso saber o limite. As forças ficaram desequilibradas. Em breve um de nós tomará o lugar de Abel. Olhando bem acho que estou te reconhecendo...
Fernanda Blaya Figueiró
A loucura tem um lado muito sedutor. Só quem já beirou a ela, quem já trilhou o chão sem chão, já parou o tempo, já viu o que ninguém mais vê. Só quem já duvidou, profundamente. Quem sentiu a dor no peito, a garganta seca. Dizem que os loucos se reconhecem e afirmo que isso é verdade. Pior do que se permitir uma loucura é se abster dela. Andar entre eles e fingir. Fingir que também é um. Pior disso é reconhecer neles, os não loucos, alguma coisinha de loucura. E querem enganar a mim. Ficam dizendo, olha! eu não sou assim! Viu? Eu só tô brincando... Você sabe, né? Oh!, digo, sei sim. E dou corda. Com ela não se brinca. Então eles vão indo, indo, indo e quando ela os pega , mas pega pra valer, ficam pelos cantos como cãezinhos que colocaram o focinho na tomada. Dizem, louco? Eu? Não! E sem saber se bandeiam para o lado de cá. Só que ela é terrível, os abandona. Eles ficam cheios de uma razão, racional. Então, nós, os autênticos ficamos olhando, olhando. Eles passam e dizem não os conheço. Como não se contraria os loucos respondemos, não! Nos aventuramos dentro de nossa loucura, nos entregamos a ela e fazemos reverência quando aparece.
Eles se desesperam, se agarram a sua razão e sua sanidade. Nós? Não! Ela tem muitos desejos e vai embora quando quer, volta quando quer. Não bate a porta, não manda anúncio. Não cobra nada, nem dá também. Quem matou Abel? Todo mundo sabe, foi Caim! Abel era um de nós. Caim um deles! Os novos loucos deste centro tem um atributo, a maldade. Com essa é bem difícil de lidar. Com essa é preciso saber o limite. As forças ficaram desequilibradas. Em breve um de nós tomará o lugar de Abel. Olhando bem acho que estou te reconhecendo...
Fernanda Blaya Figueiró
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