Agradecimento!
Agradeço, em nome do Movimento Cultural ICV- Instituto Cultural Viamonense, o convite para a cerimônia de entrega da obra de restauração do prédio do Museu de Comunicação Hipólito José da Costa. Ontem ao entrar na sala de exposições tive a grata surpresa de encontrar um local iluminado por cores radiantes e uma bela exposição sobre a história da comunicação e da palavra. A sala mesmo estando completamente diferente foi mantida e preservada, achei isso muito educativo em termos do que significa nos dias de hoje restaurar um prédio. Uma das últimas mostras que visitei, antes da obra de restauração do prédio, foi sobre a história do Hospital São Pedro, na exposição havia fotografias, documentos, objetos que deixavam a forte impressão de um lugar sombrio, assim como parece sombrio o próprio conceito de saúde mental. Ontem uma das frases que mais me chamou a atenção falava sobre a importância das cores para nosso bem estar. Não recordo a frase literal, mas guardei o conceito, as cores influenciam na nossa percepção do mundo. Um pouco antes estive passeando pela Casa de Cultura Mario Quintana e escrevi esta breve reflexão; “ Preso ao Quadrado – O ninho da pomba me pareceu feito no lixo, estranhei este fato e fiquei comovida por ela, imaginei como sobrevivia entre os restos de reboco molhado pelo chuvisqueiro. Na beirada do telhado ela não entendeu minha solidariedade. Não havia nada de errado com seu pequeno ninho. Ela estava adaptada ao que o meio podia lhe oferecer.Talvez por esta estranha possibilidade que a Pomba seja o símbolo do Espírito Santo. Por esta outra dimensão que abrem, elas são urbanas e rurais, vivem no litoral ou na floresta, como nós, humanos. Estou presa a determinadas estéticas e conceitos. As pessoas combatem as pombas para não perceberem que se pode viver naquilo que chamamos de sujeira. As pombas são as mendigas das aves. O mal das pombas assusta as pessoas, será que o mal dos humanos não assusta as pombas? Não devemos temer tanto , o temor cria o quadrado no qual nos aprisionamos”. Resolvi escrever um pouco sobre este impacto que os lugares causam no processo criativo. Não importa se é uma grande reflexão, importa que mesmo uma pomba na beirada de um prédio público tem algo a dizer. Retornando a exposição sobre o hospital escrevi na época um texto, estava participando de uma oficina promovida pela Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul em parceria com o Sesi e trabalhamos um texto de Guy de Maupassant . Escolhi as imagens da exposição para produzir um texto sobre a sensação que as fotografias me deixaram. Aproveito para divulgar hoje, havia o projeto de uma publicação que acredito não deva sair porque já faz um ano. Mas os textos foram produzidos e merecem ser aproveitados.
Muito obrigada pelo convite
Fernanda Blaya Figueiró
Poetisa e Escritora Independente membro do movimento ICV
TEMA ADULTO
O Fantasma Parisiense
Isabelle nunca tinha ido a Paris, mas sempre via o mesmo fantasma. Seus relatos a levaram a viver confinada em uma pequena cela, com janelas de grades torneadas, uma cama de ferro... E um odioso colchão duro. Todos os dias ganhava duas horas de liberdade, logo depois da sesta, o homem grandalhão vinha, todo vestido de branco e a levava até um frondoso jardim, com uma invejável coleção de palmeiras imperiais, lá ela podia ouvir o canto dos pássaros e passear pelo gramado. O Conde só aparecia quando ela sentava no branco de pedras, usava uma boina preta e um bigode fino e engomado, seus longos cabelos cobriam os ombros, o que dava a impressão de que sua estatura era ainda menor. Isabelle era uma mulher forte, encorpada, usava os cabelos presos com um lenço e tinha um belo sorriso. O conde ficava parecendo um garoto ao seu lado, ela não entendia como um renomado pintor podia ter mãos tão alvas e suaves, seus olhos brilhavam enquanto contava suas aventuras pelos salões parisienses, seus longos passeios solitários pelas infindáveis exposições... Isabelle podia sentir o cheiro da tinta a óleo, a magnitude das peças entalhadas, a suavidade do veludo usado pelas madames. Discutiam muito, o conde era absolutamente contra esta loucura moderna de encarcerar a arte em um museu: - A arte precisa viver, respirar, ser! Ser parte das cidades. – Mas, e a violência, os saques e depredações? - ela tentava ponderar - O que fazia com que ele inflamasse como se fosse explodir de raiva. – Prefiro um quadro meu destruído pela chuva do que embalsamado em uma parede fria e sem vida, iluminado por raios de sol do que ofuscado por luzes artificiais... Isabelle sabia que isso era só uma rebeldia passageira, uma esquisitice de artista. Ela calava, ria, chorava, gesticulava... Até o sino da igreja bater, chamando para a Ave Maria... O homem grandalhão voltava. Ela tentava não ir, mas ele era forte, se ela resistisse apanhava e vinha mais um, às vezes eles usavam a “camisa”. Isabelle agüentava tudo, menos a “camisa”. Naquele dia tinha tentado dizer a doutora o que acontecia. Ninguém acreditava. O homem grandalhão chegou como sempre e disse: - Então, seu pintor veio hoje? Ela já sabia que ele estava só debochando, não respondeu, ela estava com fome e uma sede que cola a boca por dentro, enquanto caminhava ao seu lado viu a doutora entrando no carro vermelho, como era lindo, ela, sem o avental, parecia uma das pinturas de que o Conde falava. Seus olhos ficaram embaralhados, não entendia porque uma pessoa tão boa não acreditava nela. As portas foram fechando e a grama sendo trocada pela pedra dura. Ela entrou e o homem grandalhão trouxe a sua sopa e o copo com água... – Está com fome? – indagou – Isabelle não respondeu. – Vem aqui! – ele ordenou enquanto soltava o cinto – Isabelle não se mexeu e os insultos dele começaram bem baixinho – Você tem que comer... Vamos que eu tenho outros pacientes para servir... Enquanto dizia isso ele jogava o corpo de Isabelle no colchão, penetrava por trás, enfiava as mãos em seus seios e gozava como um animal... Ela gritava e ninguém acudia. Depois disso podia comer e beber. Contou tudo, muitas vezes, e a doutora?... Quando a porta fechou O Conde apareceu, vindo de Paris, cheio de novidades sobre os salões. O homem grandalhão veio buscar a bandeja, Isabelle tremeu, ele tinha nas mãos a “camisa”... A “camisa”!!! Ela sabia o que ia acontecer, o sorriso dele contava, não reagiu e ficou de quatro, não adiantava reagir, só que desta vez quando ele fez, contraiu os glúteos e arremessou o corpanzil dele contra a porta, o homem urrou de dor e daquele dia em diante nunca mais chegou perto da cela. Isabelle nunca mais viu o jardim, nem as palmeiras, só o Conde.
Autoria: Fernanda Blaya Figueiró
Agradeço, em nome do Movimento Cultural ICV- Instituto Cultural Viamonense, o convite para a cerimônia de entrega da obra de restauração do prédio do Museu de Comunicação Hipólito José da Costa. Ontem ao entrar na sala de exposições tive a grata surpresa de encontrar um local iluminado por cores radiantes e uma bela exposição sobre a história da comunicação e da palavra. A sala mesmo estando completamente diferente foi mantida e preservada, achei isso muito educativo em termos do que significa nos dias de hoje restaurar um prédio. Uma das últimas mostras que visitei, antes da obra de restauração do prédio, foi sobre a história do Hospital São Pedro, na exposição havia fotografias, documentos, objetos que deixavam a forte impressão de um lugar sombrio, assim como parece sombrio o próprio conceito de saúde mental. Ontem uma das frases que mais me chamou a atenção falava sobre a importância das cores para nosso bem estar. Não recordo a frase literal, mas guardei o conceito, as cores influenciam na nossa percepção do mundo. Um pouco antes estive passeando pela Casa de Cultura Mario Quintana e escrevi esta breve reflexão; “ Preso ao Quadrado – O ninho da pomba me pareceu feito no lixo, estranhei este fato e fiquei comovida por ela, imaginei como sobrevivia entre os restos de reboco molhado pelo chuvisqueiro. Na beirada do telhado ela não entendeu minha solidariedade. Não havia nada de errado com seu pequeno ninho. Ela estava adaptada ao que o meio podia lhe oferecer.Talvez por esta estranha possibilidade que a Pomba seja o símbolo do Espírito Santo. Por esta outra dimensão que abrem, elas são urbanas e rurais, vivem no litoral ou na floresta, como nós, humanos. Estou presa a determinadas estéticas e conceitos. As pessoas combatem as pombas para não perceberem que se pode viver naquilo que chamamos de sujeira. As pombas são as mendigas das aves. O mal das pombas assusta as pessoas, será que o mal dos humanos não assusta as pombas? Não devemos temer tanto , o temor cria o quadrado no qual nos aprisionamos”. Resolvi escrever um pouco sobre este impacto que os lugares causam no processo criativo. Não importa se é uma grande reflexão, importa que mesmo uma pomba na beirada de um prédio público tem algo a dizer. Retornando a exposição sobre o hospital escrevi na época um texto, estava participando de uma oficina promovida pela Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul em parceria com o Sesi e trabalhamos um texto de Guy de Maupassant . Escolhi as imagens da exposição para produzir um texto sobre a sensação que as fotografias me deixaram. Aproveito para divulgar hoje, havia o projeto de uma publicação que acredito não deva sair porque já faz um ano. Mas os textos foram produzidos e merecem ser aproveitados.
Muito obrigada pelo convite
Fernanda Blaya Figueiró
Poetisa e Escritora Independente membro do movimento ICV
TEMA ADULTO
O Fantasma Parisiense
Isabelle nunca tinha ido a Paris, mas sempre via o mesmo fantasma. Seus relatos a levaram a viver confinada em uma pequena cela, com janelas de grades torneadas, uma cama de ferro... E um odioso colchão duro. Todos os dias ganhava duas horas de liberdade, logo depois da sesta, o homem grandalhão vinha, todo vestido de branco e a levava até um frondoso jardim, com uma invejável coleção de palmeiras imperiais, lá ela podia ouvir o canto dos pássaros e passear pelo gramado. O Conde só aparecia quando ela sentava no branco de pedras, usava uma boina preta e um bigode fino e engomado, seus longos cabelos cobriam os ombros, o que dava a impressão de que sua estatura era ainda menor. Isabelle era uma mulher forte, encorpada, usava os cabelos presos com um lenço e tinha um belo sorriso. O conde ficava parecendo um garoto ao seu lado, ela não entendia como um renomado pintor podia ter mãos tão alvas e suaves, seus olhos brilhavam enquanto contava suas aventuras pelos salões parisienses, seus longos passeios solitários pelas infindáveis exposições... Isabelle podia sentir o cheiro da tinta a óleo, a magnitude das peças entalhadas, a suavidade do veludo usado pelas madames. Discutiam muito, o conde era absolutamente contra esta loucura moderna de encarcerar a arte em um museu: - A arte precisa viver, respirar, ser! Ser parte das cidades. – Mas, e a violência, os saques e depredações? - ela tentava ponderar - O que fazia com que ele inflamasse como se fosse explodir de raiva. – Prefiro um quadro meu destruído pela chuva do que embalsamado em uma parede fria e sem vida, iluminado por raios de sol do que ofuscado por luzes artificiais... Isabelle sabia que isso era só uma rebeldia passageira, uma esquisitice de artista. Ela calava, ria, chorava, gesticulava... Até o sino da igreja bater, chamando para a Ave Maria... O homem grandalhão voltava. Ela tentava não ir, mas ele era forte, se ela resistisse apanhava e vinha mais um, às vezes eles usavam a “camisa”. Isabelle agüentava tudo, menos a “camisa”. Naquele dia tinha tentado dizer a doutora o que acontecia. Ninguém acreditava. O homem grandalhão chegou como sempre e disse: - Então, seu pintor veio hoje? Ela já sabia que ele estava só debochando, não respondeu, ela estava com fome e uma sede que cola a boca por dentro, enquanto caminhava ao seu lado viu a doutora entrando no carro vermelho, como era lindo, ela, sem o avental, parecia uma das pinturas de que o Conde falava. Seus olhos ficaram embaralhados, não entendia porque uma pessoa tão boa não acreditava nela. As portas foram fechando e a grama sendo trocada pela pedra dura. Ela entrou e o homem grandalhão trouxe a sua sopa e o copo com água... – Está com fome? – indagou – Isabelle não respondeu. – Vem aqui! – ele ordenou enquanto soltava o cinto – Isabelle não se mexeu e os insultos dele começaram bem baixinho – Você tem que comer... Vamos que eu tenho outros pacientes para servir... Enquanto dizia isso ele jogava o corpo de Isabelle no colchão, penetrava por trás, enfiava as mãos em seus seios e gozava como um animal... Ela gritava e ninguém acudia. Depois disso podia comer e beber. Contou tudo, muitas vezes, e a doutora?... Quando a porta fechou O Conde apareceu, vindo de Paris, cheio de novidades sobre os salões. O homem grandalhão veio buscar a bandeja, Isabelle tremeu, ele tinha nas mãos a “camisa”... A “camisa”!!! Ela sabia o que ia acontecer, o sorriso dele contava, não reagiu e ficou de quatro, não adiantava reagir, só que desta vez quando ele fez, contraiu os glúteos e arremessou o corpanzil dele contra a porta, o homem urrou de dor e daquele dia em diante nunca mais chegou perto da cela. Isabelle nunca mais viu o jardim, nem as palmeiras, só o Conde.
Autoria: Fernanda Blaya Figueiró
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