Culto à juventude
Muitas pessoas que vão ler este texto não irão concordar com ele. Digo que elas têm suas legitimas razões, peço apenas que leiam sem preconceito. Eu sou uma pessoa que acha belo o ser humano em sua completude, desde pequena adoro olhar e sentir as pessoas mais velhas, elas tem algo que eu não tenho, um conhecimento profundo da vida que aos poucos estou começando a perceber. Quando eu tinha uns cinco anos, mais ou menos, tinha o hábito de freqüentar o galpão de meu avô Rômulo, só para admirar uma das pessoas mais belas que conheci e de quem já falei inúmeras vezes “Tio Ilhodoro” , pelo menos era como ouvia seu nome. Ele era alto, negro, levemente encurvado e tinha a cabeça coberta com belos cachinhos brancos, usava esponjas nos chinelos para dar conforto aos pés cansados. Suas mãos eram longas e amareladas com calos nas articulações dos dedos, formados provavelmente pelo trabalho. E o mais incrível era que ele brilhava. Não falava nada, existia. Não impunha nada a ninguém. No meu universo infantil ele foi uma das pessoas mais belas que conheci. Porque as crianças não cultuam a juventude, as crianças têm o dom de perceber a beleza que transcende no outro. Este “olhar” para a humanidade de uma forma despojada de conceitos e julgamentos é muito libertador. Não há nada de errado em envelhecer. Não há nada de errado em ganhar alguns quilos ou perder. Tomei uma decisão, a de não mais colorir os meus cabelos, isso gera um olhar espantado nas outras pessoas, que também tem alguns fios de cabelos grisalhos e um verdadeiro horror ao processo natural de envelhecimento. Fui pesquisar na rede sobre este assunto e me deparei com frases como : - “É preciso manter a mente jovem! A Idade está em sua cabeça! Mantenha sua juventude usando tais e tais métodos...” Para mim isso é um erro conceitual. Não há nada de errado com o pensamento maduro. Quando eu era jovem ouvi muitas vezes: vocês deve agir assim, assado, ensopado, deve emagrecer, deve esticar os cabelos, deve fazer fortuna, deve tirar notas altas, é feio ser assim, é feio, feio, deve, deve. E a cada coisa que procurava para satisfazer os outros algo em mim murchava, pois nunca serei perfeita nem aos olhos dos outros nem aos meus. Minha exigência comigo mesmo era grande demais, perdi muito tempo com vergonha de existir. Hoje eu sei que a grandeza de meu amigo
de infância era essa sabedoria. Não era rico, não era jovem, não era escolado, não era nada do que todo o mundo dizia que era importante para se alcançar a Felicidade. Por muitos anos “Tio Ilhodoro” foi meu amigo estando eu na cozinha da fazenda de meu avô tomando café com bolachões ou em qualquer outro lugar. Cada vez que a realidade me parecia dura de mais era com ele que eu falava, esse “ele” que alguns chamam de Preto Velho, outros de Nossa Senhora, outros de “Eu”. Hoje digam o que quiserem os outros, sei que por estarem presos a um único paradigma de felicidade, eu sou uma pessoa que encontrou a beleza em si mesma. Perdoo as “Fernandas” mais antigas que não conseguiam se libertar da prisão de ter que ser como todo mundo, mesmo não sendo. Hoje, aos quarenta e dois anos, sei que jamais serei uma Barbie, ou uma princesa de contos de fada. Graças a Deus!
14 de agosto de 2010
Fernanda Blaya Figueiró
Muitas pessoas que vão ler este texto não irão concordar com ele. Digo que elas têm suas legitimas razões, peço apenas que leiam sem preconceito. Eu sou uma pessoa que acha belo o ser humano em sua completude, desde pequena adoro olhar e sentir as pessoas mais velhas, elas tem algo que eu não tenho, um conhecimento profundo da vida que aos poucos estou começando a perceber. Quando eu tinha uns cinco anos, mais ou menos, tinha o hábito de freqüentar o galpão de meu avô Rômulo, só para admirar uma das pessoas mais belas que conheci e de quem já falei inúmeras vezes “Tio Ilhodoro” , pelo menos era como ouvia seu nome. Ele era alto, negro, levemente encurvado e tinha a cabeça coberta com belos cachinhos brancos, usava esponjas nos chinelos para dar conforto aos pés cansados. Suas mãos eram longas e amareladas com calos nas articulações dos dedos, formados provavelmente pelo trabalho. E o mais incrível era que ele brilhava. Não falava nada, existia. Não impunha nada a ninguém. No meu universo infantil ele foi uma das pessoas mais belas que conheci. Porque as crianças não cultuam a juventude, as crianças têm o dom de perceber a beleza que transcende no outro. Este “olhar” para a humanidade de uma forma despojada de conceitos e julgamentos é muito libertador. Não há nada de errado em envelhecer. Não há nada de errado em ganhar alguns quilos ou perder. Tomei uma decisão, a de não mais colorir os meus cabelos, isso gera um olhar espantado nas outras pessoas, que também tem alguns fios de cabelos grisalhos e um verdadeiro horror ao processo natural de envelhecimento. Fui pesquisar na rede sobre este assunto e me deparei com frases como : - “É preciso manter a mente jovem! A Idade está em sua cabeça! Mantenha sua juventude usando tais e tais métodos...” Para mim isso é um erro conceitual. Não há nada de errado com o pensamento maduro. Quando eu era jovem ouvi muitas vezes: vocês deve agir assim, assado, ensopado, deve emagrecer, deve esticar os cabelos, deve fazer fortuna, deve tirar notas altas, é feio ser assim, é feio, feio, deve, deve. E a cada coisa que procurava para satisfazer os outros algo em mim murchava, pois nunca serei perfeita nem aos olhos dos outros nem aos meus. Minha exigência comigo mesmo era grande demais, perdi muito tempo com vergonha de existir. Hoje eu sei que a grandeza de meu amigo
de infância era essa sabedoria. Não era rico, não era jovem, não era escolado, não era nada do que todo o mundo dizia que era importante para se alcançar a Felicidade. Por muitos anos “Tio Ilhodoro” foi meu amigo estando eu na cozinha da fazenda de meu avô tomando café com bolachões ou em qualquer outro lugar. Cada vez que a realidade me parecia dura de mais era com ele que eu falava, esse “ele” que alguns chamam de Preto Velho, outros de Nossa Senhora, outros de “Eu”. Hoje digam o que quiserem os outros, sei que por estarem presos a um único paradigma de felicidade, eu sou uma pessoa que encontrou a beleza em si mesma. Perdoo as “Fernandas” mais antigas que não conseguiam se libertar da prisão de ter que ser como todo mundo, mesmo não sendo. Hoje, aos quarenta e dois anos, sei que jamais serei uma Barbie, ou uma princesa de contos de fada. Graças a Deus!
14 de agosto de 2010
Fernanda Blaya Figueiró
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