Velha mania!!
Tem alguns desejos que ganham um forte impulso e de repente aparecem, normalmente causando algum constrangimento. Viver sozinha. Essa desejo e essa aversão compartilhavam os pensamentos de Ticiane. Ela nunca havia vivido só, sempre compartilhou o quarto com alguém. Nunca havia sido responsável pelas compras, ou por decidir o jantar. Na casa de passagem tudo era passageiro, nada era seu. Quando saiu de lá tudo era dos patrões. Viveu a vida inteira na casa de alguém, com a graça de Deus. Sua lembrança mais remota era de dividir a cama com a avó, na casinha destinada aos trabalhadores de seus patrões. Não casou, não teve filhos. Não queria ser responsável por filhos. Tinha um pequeno volume de dinheiro guardado e se arriscou a sonhar em realizar este desejo escondido. Como seria viver sozinha? Não entendia a angústia, a dor no peito, o medo. Seria este um desejo real ou uma velha mania. Falou por acaso – Eu queria morar sozinha! Mas alguma coisa soou de forma estranha, como se aquelas palavras não pudessem ser proferidas. Pareceu uma grande mentira. Não era mentira! Se você quisesse mesmo, você faria. Este pensamento colocou um enorme dedo sujo na ferida e apertou fundo. De dentro da ferida saltaram minúsculas larvas. Larvas de pensamentos corrompidos pelo medo, angústias falsas, culpas e mais culpas. Você sempre quer o que não tem! O domingo está terminando e você vai voltar para o quartinho dos fundos. As larvas se multiplicavam em contradições. Sua vida foi um fracasso, sua vida foi um sucesso. O quartinho é o fim do mundo, o quartinho é seguro. Você vive a vida dos outros, você nunca vai conseguir. Você, você, você!!! O enorme dedo na ferida. Era hora de voltar e lágrimas inundavam sua face. Chegou pelo portão lateral, foi recebida com festa pelo belo cão, que estava com saudades. Sua angustia transbordou e Donalva indagou:- Está tudo bem, Ticiane? Sim, respondeu automaticamente. - Olha! Chegou uma carta para você. Ah! É sobre uma casinha, disse encabulada. Uma casinha? Exclamou a senhora. È!... Você está pensando em ir morar sozinha? Seu coração bateu acelerado, parecia que não conseguiria ficar dentro do peito. As palavras não saiam de sua boca e suas mãos tremiam.- Isso seria maravilhoso! Sentenciou Dona Alva. - A senhora acha? - Um alívio tomou conta de seu corpo. Abriu a carta e mostrou a aprovação de crédito. Ela precisava saber. Saber que podia ir. Na sua casinha tudo seria perfeito, manteria tudo limpo e arrumado, faria tudo do seu jeito, com seu gosto. Não teria barulho, nem poeira. Ficou feliz por ter a carta e logo poder ter a tão sonhada liberdade, só sentia o coração pesado por não ter com quem compartilhar aquilo tudo. Ticiane estava envolta em uma nuvem de desejos contraditórios. Queria morar sozinha, com alguém junto.
Fernanda Blaya Figueiró
26 de julho de 2010
Tem alguns desejos que ganham um forte impulso e de repente aparecem, normalmente causando algum constrangimento. Viver sozinha. Essa desejo e essa aversão compartilhavam os pensamentos de Ticiane. Ela nunca havia vivido só, sempre compartilhou o quarto com alguém. Nunca havia sido responsável pelas compras, ou por decidir o jantar. Na casa de passagem tudo era passageiro, nada era seu. Quando saiu de lá tudo era dos patrões. Viveu a vida inteira na casa de alguém, com a graça de Deus. Sua lembrança mais remota era de dividir a cama com a avó, na casinha destinada aos trabalhadores de seus patrões. Não casou, não teve filhos. Não queria ser responsável por filhos. Tinha um pequeno volume de dinheiro guardado e se arriscou a sonhar em realizar este desejo escondido. Como seria viver sozinha? Não entendia a angústia, a dor no peito, o medo. Seria este um desejo real ou uma velha mania. Falou por acaso – Eu queria morar sozinha! Mas alguma coisa soou de forma estranha, como se aquelas palavras não pudessem ser proferidas. Pareceu uma grande mentira. Não era mentira! Se você quisesse mesmo, você faria. Este pensamento colocou um enorme dedo sujo na ferida e apertou fundo. De dentro da ferida saltaram minúsculas larvas. Larvas de pensamentos corrompidos pelo medo, angústias falsas, culpas e mais culpas. Você sempre quer o que não tem! O domingo está terminando e você vai voltar para o quartinho dos fundos. As larvas se multiplicavam em contradições. Sua vida foi um fracasso, sua vida foi um sucesso. O quartinho é o fim do mundo, o quartinho é seguro. Você vive a vida dos outros, você nunca vai conseguir. Você, você, você!!! O enorme dedo na ferida. Era hora de voltar e lágrimas inundavam sua face. Chegou pelo portão lateral, foi recebida com festa pelo belo cão, que estava com saudades. Sua angustia transbordou e Donalva indagou:- Está tudo bem, Ticiane? Sim, respondeu automaticamente. - Olha! Chegou uma carta para você. Ah! É sobre uma casinha, disse encabulada. Uma casinha? Exclamou a senhora. È!... Você está pensando em ir morar sozinha? Seu coração bateu acelerado, parecia que não conseguiria ficar dentro do peito. As palavras não saiam de sua boca e suas mãos tremiam.- Isso seria maravilhoso! Sentenciou Dona Alva. - A senhora acha? - Um alívio tomou conta de seu corpo. Abriu a carta e mostrou a aprovação de crédito. Ela precisava saber. Saber que podia ir. Na sua casinha tudo seria perfeito, manteria tudo limpo e arrumado, faria tudo do seu jeito, com seu gosto. Não teria barulho, nem poeira. Ficou feliz por ter a carta e logo poder ter a tão sonhada liberdade, só sentia o coração pesado por não ter com quem compartilhar aquilo tudo. Ticiane estava envolta em uma nuvem de desejos contraditórios. Queria morar sozinha, com alguém junto.
Fernanda Blaya Figueiró
26 de julho de 2010
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