Embotamento

Embotamento


Essa falta de energia, que estou sentindo para escrever, vem da total similaridade entre os fatos e eventos do mundo. Por exemplo: projetou-se o turismo em massa e a “cultura do lazer” como um futuro próspero para o mundo. Essa massificação fez com que o lazer e o turismo perdessem o seu “brilho”, seu inusitado. Ambos viraram fontes de uma grande chatice generalizada, lugares lotados, filas e estradas entupidas... Sem falar na padronização de estilos e uma estética estéril. Diversões que não divertem. Entretenimento que não entretém. O precioso tempo livre que o Homem sempre sonhou tornou-se um fardo a carregar, definido por horas de congestionamento ou de embotamento diante de um tubo de imagem, seja passiva ou ativamente. Com a escrita acontece algo semelhante. Ando lutando para vencer este obstáculo imaginário e transcender. Virar a página. Encontrar um novo capítulo. Uma nova combinação de palavra, uma nova realidade. Mesmo tendo a perfeita noção de que há um limite para a criação humana. Um limite humano de entendimento e de apreensão das experiências.
Você vai se perguntar: O que eu tenho a ver com isso? Nada. Peço de antemão desculpas por esse “parênteses”. Não há uma culpa , apenas uma constatação. Sofro de uma: “Síndrome de Manchetes”. Não consigo dar muito tempo para um autor, tenho que pular e abrir outra notícia que não noticia. Acho que por isso também não tenho dialogado ao vivo, pois meu texto de ontem já foi. Não consigo mais fixar nele, mesmo relendo, não consigo quebrar as dobrinhas das patas da lagosta e chegar a carne, ao centro do que escrevi. Algumas horas depois de ter terminado, sinto que aquela escrita ficou estranha. Aquele debate ultrapassou. Mas não transcendeu. Quando transcende a gente sente a luz, o calor, a beleza. Esse embotamento causa uma asfixia e uma densa nuvem de frio. Mesmo assim tenho orgulho de todos os meus textos mesmos os extremamente óbvios e corriqueiros. Porque um dia vou voltar a eles e reconhecer cada passo de minha transcendência artística. Sei que um dia virá, assim como todos sabemos que um dia morreremos. Mas o que vem com isso é que deixa a gente agoniado. Até lá vou continuar com meu papinho furado.
Tudo é tão brilhante e perfeito que resta tomar um cafezinho olhando para tempestade que se forma, enquanto o sol tira uma sonequinha, num raro momento de autêntico lazer. Ou fazer um pouquinho de turismo na lua e esquecer as manchetes doidivanas e repetitivas dos seres humanos. Quando será que os jornalistas vão cair do pedestal, que um dia foi ocupado por pensadores, cientistas, artistas, deuses. Quem será a bola da vez... Os importantes.Essa idéia estava "dando sopa" captei, daqui a dois minutos um montão de gente vai captar e vai se tornar uma velhice piegas.

Viamão, 26 de maio de 2010
Fernanda Blaya Figueiró

Comments