Conto

Pão e circo – Uma velha receita


Se houvesse uma trilha sonora para esse texto seria o toque de baquetas em um velho tamborete de guerra. Aconteceu que ao entoar a antiga cantiga o jovem garoto liberou um forte espírito combativo que estava adormecido. Foi hipnotizado e descobri-se mão de obra das antigas guerras, ou bucha de canhão, entorpecido perdeu a noção da realidade. Agora me chamo Spartacus disse para a mãe, que não entendeu nada. Você ouve a corneta? Você sente a energia da batalha que se aproxima? Quem foi esse? Perguntou a mãe. Um grande guerreiro. Mas, ela disse sorrindo, não existem mais guerras! Hoje vivemos em Paz! A mãe riu das bobagens ditas pelo filho, sem entender que havia entre os homens aqueles que ainda eram guerreiros. Isso não era bom, nem era mau. Era algo que o menino era. Spartacus era seu sonho de bravura e sua indignação com algo que a mãe não compreendia. Nem o delegado. Nem a diretora da Escola. Nem os outros meninos. Não que se diga que alguém houvesse que aceitar, mas compreender, alguém deveria ter compreendido. Uma vez que alguém houvesse compreendido, esse alguém deveria, junto com o menino, reinventar o seu herói e encontrar uma forma de fazê-lo viver esse conto inverso ao de fadas. Esse conto de guerreiros. Porque ainda existem muitos guerreiros em potencial e na falta de uma reinvenção das coisas eles ficam assim como que perdidos. Basta uma corneta e um bater de baquetas para que eles se desesperem e acessem a seus ancestrais instintos. Esses meninos são no fundo mal entendidos. Com quem será que esse menino de arma na mão queria se parecer? Nossos heróis? Nossos heróis são dotados de super poderes para ganhar a única coisa que nossa sociedade respeita...
Esses meninos,algumas vezes, são a mão de obra de uma guerra que não aconteceu. Não que se queiram reviver as guerras, o que devemos é inventar uma maneira destes meninos viverem em Paz. Se por acaso nascesse um Spartacus perto de mim eu o deixaria brilhar e ter a ilusão de que é um herói. Um herói da engenharia, por exemplo, ou do golfe. Um gladiador de uma arena fofa e uma espada cega.

Viamão, 13 de maio de 2010

Fernanda Blaya Figueiró

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