Insight Coletivo
- Eu fui um menino pobre!
A afirmação trazia intrínseca uma declaração de vitória. Isso que você abomina: pés descalços, roupa amarrotada, nariz correndo, terra presa aos sapatos, nas esquinas pedindo uma moeda, trocando carregar uma sacola pesada por um doce. Esse um dia fui eu. Também briguei na escola e feri meus joelhos, quebrei pequenas regras, mas em algum momento consegui entender que tudo poderia ser diferente. Não foram todos os que tiveram essa visão. Muitos dos meus iguais não conseguiram chegar até esta esquina, onde se apresentam os caminhos. Para mim foi nesta esquina que a luz apontou meu caminho. Você me pergunta o que exatamente aconteceu e eu tenho que dizer que não sei. Tive uma forte dor de barriga e a coordenadora da escola me deixou ir para casa. Saí no meio da manhã e tudo parecia diferente, as ruas estavam vazias e não havia nenhuma mãe no portão da escola. Passei pelo armazém, que estava lotado; pela oficina, onde um parafuso rolou até o meio da rua; pela farmácia, onde um vidro quebrou; pela frente da igreja, onde um bêbado xingava o ar. Até chegar aqui, a dor de barriga já havia passado, nesta esquina congelei com o estranho assombro de poder virar para o outro lado. Ninguém saberia. Numa fração de segundos imaginei como seria não voltar para casa. A imagem do bêbado xingando me fez virar. Cheguei em casa fora da hora e o cheiro do feijão era outro, ainda estava cozinhando. Descobri uma vida que eu não conhecia. Tocava uma música no rádio que eu nunca ouvira e a roupa estendida no varal brilhava ao sol. Para mim foi naquele dia que tudo mudou. Aquele prato de feijão com farinha ganhou um gosto de vida, assim como a água e a bala que vinha em uma fita colorida com o rosto de um bichinho. No outro dia, enquanto a professora falava, eu decidia como seria a minha vida. A professora parecia falar uma outra língua, as terríveis “tabelas de concordância verbal” eram indecifráveis para mim. Todos aqueles esquemas no quadro eram labirintos e eu não tinha nenhuma linha para poder voltar. O ano prosseguia e eu não apreendia aquele conteúdo. Não entrava naquele código até que de repente, num estalinho, tudo foi pro seu lugar, como se o bêbado parasse de xingar, o parafuso voltasse para a oficina, o vidro da farmácia não quebrasse e todos os clientes do armazém fossem atendidos. Depois daquele dia passei a escolher bem todos os meus caminhos. Espero que um dia o mundo inteiro tenha “um estalinho” e que tudo fique arrumado. Se eu aprendi a conjugar os verbos? O suficiente para tocar a vida e ser feliz.
Fernanda Blaya Figueiró
Viamão, 15 de janeiro de 2010.
- Eu fui um menino pobre!
A afirmação trazia intrínseca uma declaração de vitória. Isso que você abomina: pés descalços, roupa amarrotada, nariz correndo, terra presa aos sapatos, nas esquinas pedindo uma moeda, trocando carregar uma sacola pesada por um doce. Esse um dia fui eu. Também briguei na escola e feri meus joelhos, quebrei pequenas regras, mas em algum momento consegui entender que tudo poderia ser diferente. Não foram todos os que tiveram essa visão. Muitos dos meus iguais não conseguiram chegar até esta esquina, onde se apresentam os caminhos. Para mim foi nesta esquina que a luz apontou meu caminho. Você me pergunta o que exatamente aconteceu e eu tenho que dizer que não sei. Tive uma forte dor de barriga e a coordenadora da escola me deixou ir para casa. Saí no meio da manhã e tudo parecia diferente, as ruas estavam vazias e não havia nenhuma mãe no portão da escola. Passei pelo armazém, que estava lotado; pela oficina, onde um parafuso rolou até o meio da rua; pela farmácia, onde um vidro quebrou; pela frente da igreja, onde um bêbado xingava o ar. Até chegar aqui, a dor de barriga já havia passado, nesta esquina congelei com o estranho assombro de poder virar para o outro lado. Ninguém saberia. Numa fração de segundos imaginei como seria não voltar para casa. A imagem do bêbado xingando me fez virar. Cheguei em casa fora da hora e o cheiro do feijão era outro, ainda estava cozinhando. Descobri uma vida que eu não conhecia. Tocava uma música no rádio que eu nunca ouvira e a roupa estendida no varal brilhava ao sol. Para mim foi naquele dia que tudo mudou. Aquele prato de feijão com farinha ganhou um gosto de vida, assim como a água e a bala que vinha em uma fita colorida com o rosto de um bichinho. No outro dia, enquanto a professora falava, eu decidia como seria a minha vida. A professora parecia falar uma outra língua, as terríveis “tabelas de concordância verbal” eram indecifráveis para mim. Todos aqueles esquemas no quadro eram labirintos e eu não tinha nenhuma linha para poder voltar. O ano prosseguia e eu não apreendia aquele conteúdo. Não entrava naquele código até que de repente, num estalinho, tudo foi pro seu lugar, como se o bêbado parasse de xingar, o parafuso voltasse para a oficina, o vidro da farmácia não quebrasse e todos os clientes do armazém fossem atendidos. Depois daquele dia passei a escolher bem todos os meus caminhos. Espero que um dia o mundo inteiro tenha “um estalinho” e que tudo fique arrumado. Se eu aprendi a conjugar os verbos? O suficiente para tocar a vida e ser feliz.
Fernanda Blaya Figueiró
Viamão, 15 de janeiro de 2010.
Comments
muito bom!!!
Bjs