Imagem corrompida



A luz de seus olhos lembrava um fundo e escuro poço, algo de ancestral adormecia escondido no seu olhar. Sentiu que o ambiente em que entrara estava corrompido por uma falsa moralidade e um puritanismo disfarçado. Trajava roupas simples que expunham a pele amarelada. Para ela o ambiente foi ficando mais hostil a cada minuto que passava, isso não era nenhuma novidade, já abandonara muitos ambientes por se sentir indesejada, excluída, mas eram lugares que não valiam a pena. Um jovem cheio de pompa se dirigiu a ela dizendo que todos os ingressos haviam sido vendidos e que a casa estava lotada. Apresentou o comprovante de pagamento emitido pela internet. O jovem enrubesce e indicou o lugar no meio da platéia. Ela agradeceu. Como ainda faltava algum tempo se dirigiu ao bar e pediu um chocolate, para desespero do rapaz que não sabia que as pessoas podem ser diferentes. Aos poucos a sala foi ficando lotada, o chocolate estava amargo e frio, mas não reclamou. Os sons alegres de sua infância encheram sua alma de alegria, uma sensação de conforto e confiança tomou conta de seu ser. A campainha indicava que o show ia começar, pagou o chocolate e ocupou seu lugar. Deu ao jovem uma farta gorjeta, não por seus méritos, mas por piedade, ele deve ter sido ensinado a valorizar o luxo, o tom da pele, o status e a “as boas maneiras”, uma coleção de normas enfadonhas usadas para que algumas pessoas possam se sentir superiores as outras. Aquele rapaz que nasceu do ventre de uma mulher, entre água e sangue, que precisa comer, dormir e amar, como todo o mundo, acreditava que uma coleção de regras tolas o tornaria menos parecido com os outros. Melhor do que os outros. Ao passar pelo corredor ouvi um sussurro: “ – Não sabia que teriam brasileiros aqui! Esse lugar já foi melhor!”. Será que aquela poltrona revestida de veludo nunca tinha acolhido alguém da própria terra? Pobre gente!- pensou. As luzes se apagaram e por alguns instantes todos se tornaram iguais, a escuridão apagou o tom das peles, os traços das feições e a textura dos cabelos. A música fluiu igual para todos. A grandeza do espetáculo lavou a corrupção das mesquinharias. O preconceito só atinge a quem aceita. Ela sabia que não deveria se importar com o que os outros irão dizer ou pensar, para poder viver de forma autêntica e verdadeira. Ao final as luzes se acenderam e cada um saiu levando consigo um pouco da escuridão e um pouco da luz. Mas, foi cansativo. Tem um Brasil, dentro do Brasil, que não gosta dos brasileiros. Pobre gente!

Viamão, 06 de janeiro de 2010

Fernanda Blaya Figueiró

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