Crônica

Reconstruir o próprio futuro.
As notícias do Haiti são desoladoras e preocupantes, lembrei de uma metáfora antiga, a Estatua de Sal de Ló, os sobreviventes de uma catástrofe que são obrigados a sair de seu povoado sem “olhar para trás”( sem o sentido de que a catástrofe seja um castigo divino). O mundo quer ajudar os haitianos a reconstruírem sua comunidade, mas acredito que passado o susto, o povo haitiano deveria ser convidado a “pensar” junto esta reconstrução, para que esse processo seja feito com a responsabilidade e a ação deles. Uma ação externa pode criar o sentimento de incapacidade, o que seria muito ruim e colocaria em jogo a soberania do povo e a identidade cultural. Pensar em crianças sendo adotadas provisoriamente por outras culturas pode levar a uma confusão de identidade, como estas crianças retornariam a suas origens depois de ter contato com uma cultura totalmente diferente e estabelecendo vínculos afetivos com as famílias que as adotam provisoriamente. Acredito que adoção é um ato permanente e não transitório. Tenho na minha memória a lembrança de Navios chegando da África com refugiados que foram acolhidos pela França, estes refugiados encontraram abrigo, proteção, mas enfrentaram grandes problemas. Na minha humilde opinião a ação externa deveria ajudar a fortalecer as famílias haitianas e estimular que, na medida em que a sociedade volte a ter sua infra-estrutura básica retomada, os órfãos haitianos sejam adotados por famílias haitianas. O próprio trabalho de reconstrução pode ir, aos poucos, reestabelecendo a comunidade, gerando emprego e renda. A comunidade pode gerar lideranças positivas e grupos de cidadãos que façam um “mutirão de reconstrução”. O Haiti precisa “respirar” e se tornar agente na reconstrução de sua comunidade. Fiquei em dúvida se deveria escrever sobre isso, pois muitas pessoas tem uma competência muito maior para pensar e opinar sobre estas ações. Tudo o que ficamos sabendo é através da imprensa e a impressão que fica é de que a população local está alijada do processo.

Fernanda Blaya Figueiró

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