Um Conto - A Obsessão

A Obsessão

Augusto estava obcecado pela idéia de ser grande. Quando era pequeno ouvia de várias fontes que seria um grande homem, esse pensamento tomou posse dele com uma força surpreendente. Estudava incansavelmente a biografia de grandes personalidades, como o objetivo de tentar descobrir o que os tornava iguais entre si e diferentes da grande maioria. Caminhava ao longo do lago observando as pessoas e todas lhe pareciam muito óbvias, patéticas e sem energia. Augusto se sentia prisioneiro desta idéia. Como pode alguém se tornar prisioneiro de um pensamento? Augusto - Um grande homem. Este é Augusto, lembrava da mãe dizendo com um brilho nos olhos, ele será um grande homem. Este é Augusto, lembrava do pai anunciando, em seus ombros depositei o nosso futuro. Este é Augusto, lembrava do padre dizendo, ele é filho de uma de nossas melhores famílias, seu nome representa o sagrado. Este é Augusto, lembrava do professor batendo em seu ombro, este será um dos grandes. Este é Augusto, lembrava de Diana falando entre piscadelas, ele será um bom pai.
Este é Augusto: um homem agoniado e prisioneiro de seus pensamentos. Apertou entre os dedos a biografia de Nero, a sociedade constrói grandes homens só pelo prazer de destruí-los, pensou. Eu não sou Nero, afirmou, olhando para os lados para certificar-se de que ninguém ouvira. Um mendigo carregando um grande saco de lona preta passou por ele. Apertou novamente o pesado volume encadernado com capa dura. Tremendo estendeu o braço e ofereceu o livro ao mendigo. O homem olhou bem para ele e disse: - Esse é Nero! Depois virou as costas e foi embora. Senhor! – gritou – Eu sei que este é Nero... Tome! Leve! O homem olhou novamente para ele e respondeu: - Eu já achei que fosse Nero, já toquei harpa enquanto minha cidade queimava e meu povo morria. Ah! Quanta dor inútil. Já ordenei a morte dos meus. Quem é você? – a pergunta surpreendeu pelo inusitado. Eu? – respondeu. Sou Augusto. O mendigo abriu o saco e puxou um objeto. Augusto não se mexeu, o sol bateu no objeto e refletiu em seus olhos, o medo congelou seu sangue. Havia poucas pessoas no lago. O Mendigo apontou o objeto para Augusto, dizendo: - Agora, quem é você? As palavras trancaram em sua garganta e as lágrimas inundaram sua face. Um silêncio secular pairou entre eles, mas logo foi quebrado pelo mendigo: - Moço! Se eu posso lhe dizer algo é que Roma tinha que queimar. Agripina tinha que morrer. E Nero tinha que enlouquecer. Tudo isso tinha que acontecer, você entende? Dizendo isso virou e desapareceu. O sol se pôs e Augusto jogou no lago o livro. Refletido no espelho do mendigo viu o seu futuro.
Passou um casal pelo lago, a mulher disse ao marido: Olha! Aquele é Augusto!


Viamão, 14 de Dezembro de 09.
Fernanda Blaya Figueiró

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