Sentimento descartável
A tourada expôs Anita a uma overdose de emoções, quando o espetáculo terminou ela ficou com uma estranha sensação de vazio. Seu corpo estava pesado como se estivesse de ressaca, a brutalidade das cenas poluiu seus sonhos, acordou assustada. Ela demorou a identificar o quarto do hotel, fazia calor, o relógio marcava três e vinte e ela havia perdido o sono. No sonho era ela quem estava frente a frente com o touro. Lembrava a fúria do animal e pela primeira vez sentiu um forte medo da morte. Buscou na rede notícias sobre o toureiro, mas, passadas mais de seis horas, o evento já estava ultrapassado, já era velho. O chifre do animal rasgando a carne do homem só refletia em seus pensamentos. Porque? Pensou. Desceu ao salão que estava completamente vazio, as portas de entrada estavam fechadas e as luzes apagadas, menos a da recepção. Seus movimentos acionaram um alarme que fez surgiu de trás do balcão um jovem assustado, solícito perguntou se ela estava precisando de alguma coisa. Seus passos ecoavam no imenso salão e respondeu baixinho que precisava de um remédio para dor de cabeça. Embaraçado ele informou que era proibido ter qualquer medicamento a disposição dos hóspedes, mas que poderia lhe fornecer o número da farmácia de plantão. Anita achou estúpida a idéia de chamar alguém no meio da noite por um comprimido e perguntou se ele poderia lhe conseguir um chá. Enquanto seu pedido era atendido aproveitou para perguntar se ele sabia algo sobre a tourada da tarde anterior. O rapaz respondeu que ambos estavam bem, o toureiro e o touro, que aquilo era uma coisa quase corriqueira naquele tipo de evento. Mas que ela não poderia deixar de assistir ao duelo do domingo, um dos maiores toureiros de toda a região enfrentaria um dos touros mais temido e admirado de que ele já ouvira falar. Enquanto ele falava Anita pensava na falta de consistência das experiências, tudo era tão descartável, tão sem sentido. A perna do homem ainda devia estar latejando e o touro ainda devia estar como o corpo carregado de substâncias químicas geradas pelo stress e o evento já não servia mais, o público já estava projetando o domingo. Lembrou das festas de sua infância, do quanto gostava de aproveitar os presentes e ouvir as histórias no dia seguinte. O chá quente acalmou seu espírito, mas não devolveu o sono. No horizonte, emoldurado pela vidraça, o sol aparecia tímido, tingindo as nuvens e iluminando a lua, é preciso saber se deslumbrar com essas pequenas coisas, pensou emocionada. A figura amarrotada no toureiro apareceu na entrada do saguão, mancando e tentando manter o equilíbrio, embriagado sentou pesadamente no sofá da recepção. Como era belo! Anita tinha tanta coisa para perguntar, mas calou, em respeito ao homem que estava ali na sua frente, descartado, sem o brilho das purpurinas e das pedras bordadas no colete. Ofegante e cansado ele perguntou se ela tinha alguma coisa para dor de cabeça.
Fernanda Blaya Figueiró
Viamão, 26 de dezembro de 2009.
A tourada expôs Anita a uma overdose de emoções, quando o espetáculo terminou ela ficou com uma estranha sensação de vazio. Seu corpo estava pesado como se estivesse de ressaca, a brutalidade das cenas poluiu seus sonhos, acordou assustada. Ela demorou a identificar o quarto do hotel, fazia calor, o relógio marcava três e vinte e ela havia perdido o sono. No sonho era ela quem estava frente a frente com o touro. Lembrava a fúria do animal e pela primeira vez sentiu um forte medo da morte. Buscou na rede notícias sobre o toureiro, mas, passadas mais de seis horas, o evento já estava ultrapassado, já era velho. O chifre do animal rasgando a carne do homem só refletia em seus pensamentos. Porque? Pensou. Desceu ao salão que estava completamente vazio, as portas de entrada estavam fechadas e as luzes apagadas, menos a da recepção. Seus movimentos acionaram um alarme que fez surgiu de trás do balcão um jovem assustado, solícito perguntou se ela estava precisando de alguma coisa. Seus passos ecoavam no imenso salão e respondeu baixinho que precisava de um remédio para dor de cabeça. Embaraçado ele informou que era proibido ter qualquer medicamento a disposição dos hóspedes, mas que poderia lhe fornecer o número da farmácia de plantão. Anita achou estúpida a idéia de chamar alguém no meio da noite por um comprimido e perguntou se ele poderia lhe conseguir um chá. Enquanto seu pedido era atendido aproveitou para perguntar se ele sabia algo sobre a tourada da tarde anterior. O rapaz respondeu que ambos estavam bem, o toureiro e o touro, que aquilo era uma coisa quase corriqueira naquele tipo de evento. Mas que ela não poderia deixar de assistir ao duelo do domingo, um dos maiores toureiros de toda a região enfrentaria um dos touros mais temido e admirado de que ele já ouvira falar. Enquanto ele falava Anita pensava na falta de consistência das experiências, tudo era tão descartável, tão sem sentido. A perna do homem ainda devia estar latejando e o touro ainda devia estar como o corpo carregado de substâncias químicas geradas pelo stress e o evento já não servia mais, o público já estava projetando o domingo. Lembrou das festas de sua infância, do quanto gostava de aproveitar os presentes e ouvir as histórias no dia seguinte. O chá quente acalmou seu espírito, mas não devolveu o sono. No horizonte, emoldurado pela vidraça, o sol aparecia tímido, tingindo as nuvens e iluminando a lua, é preciso saber se deslumbrar com essas pequenas coisas, pensou emocionada. A figura amarrotada no toureiro apareceu na entrada do saguão, mancando e tentando manter o equilíbrio, embriagado sentou pesadamente no sofá da recepção. Como era belo! Anita tinha tanta coisa para perguntar, mas calou, em respeito ao homem que estava ali na sua frente, descartado, sem o brilho das purpurinas e das pedras bordadas no colete. Ofegante e cansado ele perguntou se ela tinha alguma coisa para dor de cabeça.
Fernanda Blaya Figueiró
Viamão, 26 de dezembro de 2009.
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