Conto

O Chalé de 1919


Um painel de mogno foi o que me restou do Chalé que ocupou o meio do terreno por noventa anos. Além de muitas fotografias, algumas em preto e branco, outras coloridas. O Shopping que foi erguido em seu lugar silenciou sua existência e aniquilou com os gatos, as baratas e os ratos, seus últimos moradores. Vende-se de tudo ali, muitas coisas das quais ninguém realmente precisa. Esta inscrição, em auto-revelo, ficava bem na fachada, logo acima da porta principal, protegida por uma pequena varanda:1919. Sempre achei um belíssimo número, sei pouca coisa sobre este ano, apenas que havia acabado a primeira grande guerra. Dizem que foi construído por uma família de estrangeiros que comprou um pedaço de mato e montou uma fabriqueta de móveis. Quando morei nele lembro de encontrar retalhos de madeira no porão, pregos, um torno muito antigo... Na demolição um antiquário levou tudo, consegui roubar estas paredes da fachada, subornando um pedreiro.
Dos noventa anos de sua existência, seis foram meus. Nunca imaginei que o terreno fosse ser tão valorizado, quando nos mudamos, meus pais disseram que estávamos subindo na vida. Saímos do subúrbio para o último andar de um luxuoso edifício. Sonhei, em segredo, que um dia compraria novamente o Chalé. Tinha seis anos e a terrível tarefa de aprender a ler, não gostava dos exercícios da escola, mas adorava as ilustrações e os poemas. Lembro do Chalé ficando para trás, com seus mistérios e segredos, a cadeira de balanço foi a minha maior perda, ficou sozinha pendurada na varanda. Era de vime e tinha uma almofada estampada com enormes folhagens, verde e vermelho. De uma forma acabei comprando o que sobrou dele.
Quando nos mudamos levei junto, escondido na caixa de brinquedos, um velho álbum que tinha fotos dele em construção e de seus primeiros moradores. Nas mais antigas a paisagem era totalmente rural, com o tempo ele foi sendo abraçado pela expansão da cidade. A primeira escritura, tirei cópia no cartório há alguns anos, estava no nome de Badwin e Marta Andersson. Quando era pequena ficava horas imaginando como eles viviam. Ele era grandalhão e risonho, ela tinha os braços roliços, as bochechas coradas e um ar de vó. Por isso eu os chamava de vovô e vovó Santana, como se fossem pais de meu pai, inclusive levava as fotos para a escola, inventava muitas histórias sobre eles. Talvez porque não conheci meus verdadeiros avós. Não eram em nada parecidos conosco, mas as fotos eram muito antigas e ninguém reparava.
Meus pais não tinham passado, ou não queriam ter. Sempre fomos nós e meu irmão. Nossa vida vivia cheia de outras pessoas, amigos, conhecidos, compadres. E de muito trabalho, muito, muito, muito, mesmo. Mas, eu adorava plantar flores. Achava lindo vivermos do comércio das flores e de seu perfume. Na escola as flores eram de papel, isso me incomodava muito, bem como o apelido de colona. A gente acordava com o sol e dormia quando ele dormia. Isso é pura magia.
No edifício todas essas coisas foram se perdendo, aos poucos, mamãe me inscreveu no Balé, eu odiava, as outras meninas riam de meus “pés rachados de colona”. Umas tontas que nunca tocaram na maciez da terra recém arada. Consegui sair logo, mas descobri a música e a dança livre. Um espírito livre não aceita doutrina nenhuma. Sempre que podia voltava ao Chalé, não era fácil, mas minha madrinha continuou morando no subúrbio e isso era como uma porta para o paraíso. Estudei etiqueta, corte e costura, minha mãe realizava os seus sonhos, como se eu fosse a sua boneca.
Às vezes caminho pelo shopping como se pudesse recuperar um pouco do cheiro das flores. Mas, tudo feneceu. Meu pai jura que lhe roubaram as fórmulas e o direito de produzir os perfumes. Do último andar do poderoso edifício fomos para uma pequena casinha numa praia quase deserta. Tempos de negócios ruins, dívidas e de poucos amigos. De lá fomos para a casa de minha madrinha, para mim a vizinhança com o Chalé, que já não era mais o mesmo, foi um retorno a paz e a tranqüilidade.
A quitanda deu muita dor de cabeça no início, mas depois nos levou novamente ao topo. Compramos uma casa no bairro e dali não saímos mais. Fui a primeira mulher a cursar o técnico de eletrônica. Minha mãe não queria, achava rude e pouco elegante. Mas, no fim entendeu que era uma profissão em ascensão e muito bem remunerada. Meu irmão quis ficar na quitanda. Aos poucos foi recolocando as flores, foi aumentando e diversificando os produtos. Fui embora, trabalhar em uma multinacional. Vinha no Natal. O Chalé passou a ser ocupado por pessoas muito pobres, o pátio cheirava a mijo de rato e a umidade. Construíram várias malocas no pátio. Houve uma longa disputa judicial que acabou no despejo daquela gente toda e na imediata demolição de tudo. Eu já havia voltado, fiquei com a casa de minha madrinha, que não tinha filhos. Só o que eu consegui comprar foi esse pedacinho. Então montei o painel começando com essa do casamento de Badwin e Marta Andersson, minha mãe achou horrível, eu usar fotos de pessoas que não conhecia. Depois fotos do chalé novinho, com muitas pessoas e ornamentado para festas. Das nossas minha mãe gostou, meu pai sempre chorava com a foto da camionete cheia de flores fresquinhas, recém colhidas. As fotos de meu irmão doíam muito, mas, mantive. O balanço, com um urso sentado, faz as pessoas sorrirem. Eu apareço em poucas. 1919 é um tributo ao Chalé. Não gosto quando dizem que eu vivi uma mentira. Baldwin e Marta são meus avós. Eu comprei o Chalé... As pessoas não entendem o que é a verdade. No início fiquei confusa, mas não é uma memória só minha. Mesmo assim não vendi a obra para o shopping, acho que seria como perder de novo o balanço, o Chalé, meu irmão, as flores, o perfume. Então eu te pergunto: O que é a arte?...

Viamão, 15 de novembro de 2009.
Fernanda Blaya Figueiró

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