Conto - O Anúncio

O Anúncio

Para Rutiele a natureza é perfeita, ela queria vender essa idéia. Inicialmente pensou em escrever um tratado, mas isso seria perder tempo. A palavra perdeu a sua força ideológica, hoje as imagens dominam as pessoas. Estava acompanhando o surgimento de um novo preconceito social, a divisão dos grupos entre carnívoros e herbívoros. Como onívora não entendi a pesada massa ideológica que compunha os dois discursos. Só sabia de uma coisa: algo estava em jogo... A antiga vontade das pessoas de sentirem-se superiores as outras, dotadas de um saber surpreendente, de uma verdade absoluta. Que crime pode haver em uma raposa saciar a fome? Que grande mal há em um legume capturar da terra o que precisa para sobreviver? O homem luta contra a natureza e se acha tão importante que nega sua animalidade? Todas estas hipóteses dançavam em sua mente, uma hora inclinava para um lado, na outra para o outro. Pousou os pés na terra molhada e entendeu, não deveria fazer anúncio, nem tratado, nem deveria se meter nesta guerra, fazer parte desta cisão. A natureza uniria os grupos novamente, colocando entre eles uma antiga realidade: a fome.
Um garoto olhou para ela, tinha nos olhos a marca da fome, um ar de desalento. Rutiele estendeu a mão e ofereceu o seu sanduíche. Ele aceitou sem cerimônia e sorrindo perguntou: A senhora sempre fala sozinha? Entendeu que parte de sua angustia havia transbordado. Sempre! Respondeu sem se ocupar com os rótulos, só quem fala sozinho são os loucos e os bêbados. O garoto disse que a carne de tartaruga era muito boa, mas era proibido pegar. Perguntou se ela guardaria um segredo e abriu uma sacola onde uma velha tartaruga, sem vida, estava escondida. O meu pai sempre diz que tudo o que existe no mundo foi colocado aqui para que alguém comesse. A chuva existe para as plantinhas comerem... O garoto cuspia pão enquanto falava, um guarda aproximou-se e perguntou se tudo estava bem. Ela respondeu que sim, tudo estava bem... O garoto levantou acuado e saiu cabisbaixo... Havia cometido um crime muito grave, sabia disso. Rutiele perguntou ao guarda se sabia a previsão do tempo, mantendo sua atenção. Chuva! – Parece que vem uma chuva por aí! Em dez minutos o parque fecha, informou. Ela sabia e calçou os sapatos. Esqueceu a idéia de escrever sobre todas aquelas construções, mas não esqueceu o desespero no olhar do garoto, nem a imagem da tartaruga na bolsa.
Viamão, 15 de agosto de 09

Fernanda Blaya Figueiró

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