As poderosas imagens do Domingo
A arte imita a vida! - um jargão que aos poucos incorporamos e esquecemos o que diz. No último domingo fui ao Teatro, assistir a uma ótima peça. Antes, passei no MARGS, para conferir a exposição de artistas gaúchos. Não entendo nada de obras de arte, só o fato de que gosto de olhar. Vou aos museus olhar a vida.
Entre as várias maravilhas expostas parei, por alguns segundos, diante de um Touro, (talvez pela leitura do poema de Garcia Lorca, no último sarau) obra de autoria de Xico Stockinger. Inicialmente, o Touro me pareceu estranho, com pernas muito curtas, mais parecendo um porco. Só quando vi o “bicho de frente” entendi sua fúria, tanta, que o dorso inflado parecia explodir. Não eram cinco horas da tarde, mas quinze e trinta. Eram cinco horas da tarde, em alguns relógios, e Dona Morte andava fazendo o que lhe cabia.
Fiquei triste, ao ler, na segunda feira, sobre a passagem do grande artista. Mas, pensei, Domingo de Páscoa, oitenta e nove anos bem vividos e a tristeza dissipou, ficou a admiração, não só do Touro, mas de inúmeras obras: uma mulher com o filho no colo, os guerreiros, os poetas...
Precisava chegar a Alberto Bins, caminhei por ruas quase vazias. Na Senhor dos Passos, tem uma praça, igualmente vazia, próximo a ela um jovem se aproximou de mim e disse: - Tem... Pulei: - Não tenho nada e apressei o passo. – Eu queria a água. Já havia cruzado por ele. Tinha, nas mãos, uma garrafa plástica com algo parecido com meio copo de água. Retorno? Não! Decidi, imediatamente, estamos em frente a uma praça que deve ter água. Seria este jovem Cristo? O Senhor dos Passos? Dom Feliciano?
Os jornais destes dias foram estranhos, tinham um peito inflado, parecia que iam explodir. Desolação no olhar da mãe que tirou a vida do filho, as lágrimas da mãe que retoma a filhinha adotiva, o ataúde no museu, os três filhos de uma mesma família... Meus passos pesaram.
Pesar!
Eu devia ter olhado aquele menino nos olhos e entendido o seu pesar, a sua sede. O que me cegou foi o medo e um ego forte, ou o instinto de sobrevivência? Espero do fundo do meu coração que o menino tenha encontrado água e não uma esponja cheia de vinagre e sal.
Esta é uma história que ainda estou digerindo.
Viamão, 14 de abril de 2009.
Fernanda Blaya Figueiró
A arte imita a vida! - um jargão que aos poucos incorporamos e esquecemos o que diz. No último domingo fui ao Teatro, assistir a uma ótima peça. Antes, passei no MARGS, para conferir a exposição de artistas gaúchos. Não entendo nada de obras de arte, só o fato de que gosto de olhar. Vou aos museus olhar a vida.
Entre as várias maravilhas expostas parei, por alguns segundos, diante de um Touro, (talvez pela leitura do poema de Garcia Lorca, no último sarau) obra de autoria de Xico Stockinger. Inicialmente, o Touro me pareceu estranho, com pernas muito curtas, mais parecendo um porco. Só quando vi o “bicho de frente” entendi sua fúria, tanta, que o dorso inflado parecia explodir. Não eram cinco horas da tarde, mas quinze e trinta. Eram cinco horas da tarde, em alguns relógios, e Dona Morte andava fazendo o que lhe cabia.
Fiquei triste, ao ler, na segunda feira, sobre a passagem do grande artista. Mas, pensei, Domingo de Páscoa, oitenta e nove anos bem vividos e a tristeza dissipou, ficou a admiração, não só do Touro, mas de inúmeras obras: uma mulher com o filho no colo, os guerreiros, os poetas...
Precisava chegar a Alberto Bins, caminhei por ruas quase vazias. Na Senhor dos Passos, tem uma praça, igualmente vazia, próximo a ela um jovem se aproximou de mim e disse: - Tem... Pulei: - Não tenho nada e apressei o passo. – Eu queria a água. Já havia cruzado por ele. Tinha, nas mãos, uma garrafa plástica com algo parecido com meio copo de água. Retorno? Não! Decidi, imediatamente, estamos em frente a uma praça que deve ter água. Seria este jovem Cristo? O Senhor dos Passos? Dom Feliciano?
Os jornais destes dias foram estranhos, tinham um peito inflado, parecia que iam explodir. Desolação no olhar da mãe que tirou a vida do filho, as lágrimas da mãe que retoma a filhinha adotiva, o ataúde no museu, os três filhos de uma mesma família... Meus passos pesaram.
Pesar!
Eu devia ter olhado aquele menino nos olhos e entendido o seu pesar, a sua sede. O que me cegou foi o medo e um ego forte, ou o instinto de sobrevivência? Espero do fundo do meu coração que o menino tenha encontrado água e não uma esponja cheia de vinagre e sal.
Esta é uma história que ainda estou digerindo.
Viamão, 14 de abril de 2009.
Fernanda Blaya Figueiró
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