Oi Gente!
Comecei este conto como infanto-juvenil, mas acho que ficou um pouco adulto, então vou publicar aqui.
Um bom Carnaval.
Fernanda
A Dama
A nobreza de um ser não reside em sua origem, nem em sua raça ou posição social, mas na natureza de suas ações. Ao longo dos tempos as histórias vão se repetindo e se cruzando, nobres e avarentos agem e interagem.
Essa é a história de uma bela égua chamada Dama que, por circunstâncias do destino, foi abandonada, já na velhice. Vagava pelas ruas de uma cidade, sem nada, além de um coração generoso e um meigo olhar, procurando pasto e fugindo dos carros.
Cavalos e homens sempre viveram grandes histórias de amor e de ódio. Dama continuava meiga e bela, apesar do abandono. Seu pêlo era totalmente branco e sua crina longa e macia.
Um dia sua história cruzou com a de ser humano avarento... Nem nome o tal homem tinha... Atendia por velho, traste, carroceiro, ou ainda bêbado. Magro e maltrapilho vivia num amontoado de tábuas velhas cobertas com um pedaço de lona que chamava de casa. Ocupava seus dias recolhendo lixo, bebendo e futricando sobre a vida alheia.
Ao cruzar com Dama seu olhar de malandro logo viu que a égua ainda servia para puxar carroça. Com este perverso intento passou uma corda de nylon em seu pescoço e levou-a consigo. O porte altivo e a elegante pelagem levaram o homem a adivinhar seu nome... O que a induziu a segui-lo sem resistência.
A vida nas ruas era muito cruel e degradante, a égua achou que sua sorte havia mudado, sem imaginar a crueldade que a esperava: pouca água, pouca comida, o confinamento, marcado por uma corda envolvendo o pescoço e a árdua labuta de puxar a pesada carroça.
Seus dias viraram tormentos, suas noites solidão e medo. O homem passou a ganhar melhor, com o fruto do trabalho do animalzinho. Mas, desperdiçava tudo bebendo... Não melhorou sua casa, não cuidou de Dama, nem de si mesmo.
Perto dali vivia um jovem que a tudo observava, enternecido, acompanhava seu sofrimento. Nas prolongadas ausências do homem, passou a alimentar e tratar da égua.
Dama reconhecia o esforço do novo amigo e retribuía ao tratamento com a única coisa que possuía: um meigo olhar.
Passaram dias, noites, ventanias... Muito peso Dama carregou! O homem perdia a paciência com facilidade e, a pouca razão que tinha, por qualquer coisa.
Um dia voltavam de um longo frete... Dama estava exausta e a rua enlameada, escorregadia. A carroça atolou enquanto o homem, furioso, esbravejava e batia na égua... O jovem, indignado, saiu de sua oficina e conteve a bestialidade do homem.
Ao descobrir que a égua era, pelo jovem, amada... O homem foi tomando por um ciúme doentio e destruidor. Seus olhos explodiam de ódio e seu coração amargo foi tomado por rancor... Sozinho, sob a lona e escondido atrás das tábuas, bebia e amaldiçoava: - Com que direito aquele... – Essa maldita égua branca... – Dama? – Bicho ruim... Peste dos quintos dos infernos...
A égua sentiu, por instinto, que sua sorte ficaria ainda pior...
Ao amanhecer os pássaros não cantaram... O silêncio dominou as ruas...
O homem acordou com o sol do meio dia batendo na cabeça. Queria água. A carroça estava no mesmo lugar de sempre. E, ao lado dela, Dama dormia um sono eterno e reparador. Sua longa crina esvoaçava ao vento. Havia marcas de desumanidade por todas as partes, nas paredes, no chão, no machado cravado no tronco da árvore.
De sua oficina o jovem viu o último e libertador trote de Dama rumo ao infinito... Guardou no peito o seu olhar leve e meigo e teve a certeza de que tudo estava como tinha que ser.
O homem foi condenado a viver atormentado pelas lembranças de haver matado um anjo... Aquele que havia sido envido para libertá-lo dos sofrimentos.
Viamão, 23 de fevereiro de 2009
Fernanda Blaya Figueiró
Comecei este conto como infanto-juvenil, mas acho que ficou um pouco adulto, então vou publicar aqui.
Um bom Carnaval.
Fernanda
A Dama
A nobreza de um ser não reside em sua origem, nem em sua raça ou posição social, mas na natureza de suas ações. Ao longo dos tempos as histórias vão se repetindo e se cruzando, nobres e avarentos agem e interagem.
Essa é a história de uma bela égua chamada Dama que, por circunstâncias do destino, foi abandonada, já na velhice. Vagava pelas ruas de uma cidade, sem nada, além de um coração generoso e um meigo olhar, procurando pasto e fugindo dos carros.
Cavalos e homens sempre viveram grandes histórias de amor e de ódio. Dama continuava meiga e bela, apesar do abandono. Seu pêlo era totalmente branco e sua crina longa e macia.
Um dia sua história cruzou com a de ser humano avarento... Nem nome o tal homem tinha... Atendia por velho, traste, carroceiro, ou ainda bêbado. Magro e maltrapilho vivia num amontoado de tábuas velhas cobertas com um pedaço de lona que chamava de casa. Ocupava seus dias recolhendo lixo, bebendo e futricando sobre a vida alheia.
Ao cruzar com Dama seu olhar de malandro logo viu que a égua ainda servia para puxar carroça. Com este perverso intento passou uma corda de nylon em seu pescoço e levou-a consigo. O porte altivo e a elegante pelagem levaram o homem a adivinhar seu nome... O que a induziu a segui-lo sem resistência.
A vida nas ruas era muito cruel e degradante, a égua achou que sua sorte havia mudado, sem imaginar a crueldade que a esperava: pouca água, pouca comida, o confinamento, marcado por uma corda envolvendo o pescoço e a árdua labuta de puxar a pesada carroça.
Seus dias viraram tormentos, suas noites solidão e medo. O homem passou a ganhar melhor, com o fruto do trabalho do animalzinho. Mas, desperdiçava tudo bebendo... Não melhorou sua casa, não cuidou de Dama, nem de si mesmo.
Perto dali vivia um jovem que a tudo observava, enternecido, acompanhava seu sofrimento. Nas prolongadas ausências do homem, passou a alimentar e tratar da égua.
Dama reconhecia o esforço do novo amigo e retribuía ao tratamento com a única coisa que possuía: um meigo olhar.
Passaram dias, noites, ventanias... Muito peso Dama carregou! O homem perdia a paciência com facilidade e, a pouca razão que tinha, por qualquer coisa.
Um dia voltavam de um longo frete... Dama estava exausta e a rua enlameada, escorregadia. A carroça atolou enquanto o homem, furioso, esbravejava e batia na égua... O jovem, indignado, saiu de sua oficina e conteve a bestialidade do homem.
Ao descobrir que a égua era, pelo jovem, amada... O homem foi tomando por um ciúme doentio e destruidor. Seus olhos explodiam de ódio e seu coração amargo foi tomado por rancor... Sozinho, sob a lona e escondido atrás das tábuas, bebia e amaldiçoava: - Com que direito aquele... – Essa maldita égua branca... – Dama? – Bicho ruim... Peste dos quintos dos infernos...
A égua sentiu, por instinto, que sua sorte ficaria ainda pior...
Ao amanhecer os pássaros não cantaram... O silêncio dominou as ruas...
O homem acordou com o sol do meio dia batendo na cabeça. Queria água. A carroça estava no mesmo lugar de sempre. E, ao lado dela, Dama dormia um sono eterno e reparador. Sua longa crina esvoaçava ao vento. Havia marcas de desumanidade por todas as partes, nas paredes, no chão, no machado cravado no tronco da árvore.
De sua oficina o jovem viu o último e libertador trote de Dama rumo ao infinito... Guardou no peito o seu olhar leve e meigo e teve a certeza de que tudo estava como tinha que ser.
O homem foi condenado a viver atormentado pelas lembranças de haver matado um anjo... Aquele que havia sido envido para libertá-lo dos sofrimentos.
Viamão, 23 de fevereiro de 2009
Fernanda Blaya Figueiró
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