Estes contos foram publicados na Coletânea Escritos, da Editora Revolução Cultural.
Um abraço,
Fernanda
Capão I
Numa tarde de quarta-feira a gurizada saiu de uma interminável aula de matemática. Com as cabecinhas cheias de números, símbolos e pequenos problemas. Correram direto para o “campinho”. Os meninos divididos em dois grupos disputavam uma bola. E as meninas, sentadas sobre suas mochilas, trocavam enfeites, segredos e doces.
Danilo, Diadora e Douglas chegaram e pediram para brincar junto. Olharam para eles com desconfiança e perguntaram de onde vinham. Danilo, que era o mais velhos dos três irmãos, respondeu que eles haviam se mudado há poucos dias.
Um pequeno silêncio foi rompido por Thomáz com as seguintes palavras:
- Vamos joga! Entra cada um dum lado.
Foi o suficiente para que os irmãos invadissem o campo. Douglas arrasou, driblou meio mundo e na primeira oportunidade virou o jogo para o seu “time”, que vinha perdendo uma partida atrás da outra. Danilo não deixou por menos, mostrou que sabia jogar.
Diadora sentou com as meninas.
Assim que o ônibus chegou a gurizada largou tudo e correu para a parada. Danilo perguntou se poderiam jogar novamente no outro dia.
- Não sei. Respondeu Thomáz. Vocês não vão à escola?
- Aqui não, estudamos em Porto Alegre.
- A gente vai pensar.
Capão II
Danilo estava sentado na ante-sala do presidente do engenho. Trazia as reinvidicações dos produtores de arroz, acordadas na última reunião do Sindicato Rural.
Conhecia Thomáz desde os tempos do “Capão”, quando jogavam bola e capoeira juntos. Ele era um líder já naquele tempo. Conseguiu ascender no engenho comprando parte das ações. Era um estrategista.
Os produtores queriam aumentos, já que os custos dos insumos e financiamento estavam muito mais altos. E o governo vinha importando arroz, destruindo com o mercado interno.
O casamento de Thomáz com Diadora havia sido um desastre. Danilo tinha medo que o ex-cunhado guardasse mágoas.
A recepcionista ofereceu um café a ele, informou que seria recebido em poucos minutos. Algumas lembranças invadiram sua mente: as inúmeras brigas, seu pai não aceitava que Diadora namorasse um homem negro. Enquanto que os pais de Thomáz não aceitavam que ele namorasse uma “Catarina”, e ainda de origem alemã. A briga de Douglas e Thomáz no campinho ficara marcada na sua memória. Tinha sido no final de uma partida de futebol, logo que Danilo e Douglas descobriram o namoro as escondidas da irmã com Thomáz.
A porta abriu quase sem fazer barulho, Thomáz o esperava com um sorriso no rosto.
- Boa tarde, como vai o meu cunhado? – disse Thomaz.
- Boa tarde! – respondeu mais aliviado - Vou bem, quanto tempo?
- Pois é, sente-se. E o velho Shaffer?
- Está ótimo, ele e a mamãe.
- Eu recebi o e-mail do sindicato, mas francamente, as exigências estão pesadas.
Thomáz era um homem direto, não tinha por costume enrolar, sabia o motivo da visita e foi logo se posicionando. Não pretendia ceder muito, sabia das dificuldades que o setor vinha enfrentando.
- Nós precisamos de um aumento.
- Eu sei, mas este índice é insuportável para o engenho. A gente vai ter que chegar a um acordo.
Os dois homens estavam frente a frente, com a devida diplomacia que a ocasião exigia. O diálogo foi direto, impessoal e produtivo. Danilo conseguiu em parte o que precisava e Thomáz conseguiu acalmar os produtores.
Thomáz perguntou por Douglas.
- Ele está bem. Ganhou medalha de prata nas últimas para-olimpíadas.
- Que bom, Diadora tinha me contado. O meu piá é fã dele. Tem em seu quarto várias fotos do tio Douglas.
- O Ronaldo é uma figura.... Acho que por hoje é isso, foi um prazer...
Os dois despediram-se. Danilo saiu com uma boa impressão. Seus medos não se confirmaram, Thomáz parecia estar tranqüilo. Douglas, em compensação continuava remoendo em amarguras. Danilo lembrava de tudo com nitidez: Douglas atacou Thomáz pelas costas, ele, por reflexo, jogou o garoto no chão. Douglas caiu sobre uma pedra, fraturando a coluna. Todo mundo viu que Thomáz não teve culpa, ele era forte e jogava capoeira como ninguém. Antes da briga eram grandes amigos...
- Vamos jogar, pô! Entra cada um dum lado.
Com essa frase ele tinha aberto as portas para os irmãos. Depois da briga as famílias nunca mais se falaram. Diadora estava grávida e os dois casaram sem o consentimento de ninguém. Com o tempo foram ficando amargurados, ressentidos e se separaram. No fundo sentiam-se culpados.
Douglas fez vários tratamentos, mas o dano foi irreversível.
O dano na coluna de Douglas podia ser comparado ao dano nas vidas de todos eles. Todos tinham ficado um pouco paralisados. Os pais não aceitavam a amizade entre as crianças e foram, lentamente, contaminando o pensamento deles com o preconceito e a discriminação. Danilo lembra do olhar dos pais de Thomáz para eles, “Os Catarina”. Os burgueses, almofadinhas... Sempre que iam aos bailes as pessoas ficavam olhando de canto, cochichando. As meninas não aceitavam Diadora. Implicavam com tudo nela, que também tinha sua parcela de arrogância, achava que todos eram provincianos e sem educação. Já seus pais eram agressivos e intolerantes com as pessoas do lugar, não queriam eles brincando com Thomáz por que era “negro”. Quando souberam do motivo da briga nunca perdoaram a filha. Ela estava afastada da família desde então. Ronaldo não conhecia nem os avós maternos, nem os paternos. Era um garoto alegre e não conhecia o preconceito. Sua geração já lidava bem melhor com estas questões. Diadora morava numa cidade grande, era formada em biologia. Estava casada com Arnaldo com quem teve Ziza.
Antes de voltar para “Fora”, Danilo passou na agropecuária. Um grupo já esperava por ele. Queriam saber tudo sobre a reunião, o assunto rendeu horas de discussão acalorada.
Thomáz passou pelo campinho e sentiu uma irresistível vontade de parar. Desceu da caminhonete e ficou olhando para o campo vazio. A grama estava crescida, já que ninguém jogava bola desde que fizeram uma quadra na escola. Não havia mais as marcas do gol, nem as linhas laterais.
Danilo viu Thomáz de longe. Achou estranho e resolveu parar ali também. A cidade tinha crescido, como eles e mudado em vários aspectos.
- O que você está fazendo aí parado?
- Lembrando...
- A gente era feliz e não sabia, não é?
- É. Eu fico pensando se o Douglas vai me perdoar um dia.
- Bobagem, o Douglas teve azar, só.
- Sorte e azar. Ta aí um negócio no qual eu não acredito.
- Eu acredito. Vamos tomar um chope?
- Não, eu tenho que assar um churrasco. O Ronaldo está indo lá pra casa, com toda a turma do futebol. Uma galera! Comem que nem uns loucos.
- Também ele já tá com quase quinze.
- Quinze anos. E parece que foi hoje.
- Dois de novembro, que coincidência. Amanhã fazem quinze anos do acidente.
- No dia dos mortos. Por anos minha avó me culpou por isso, disse que tudo aconteceu por que nós jogávamos bola e brincávamos no dia dos mortos.
- Vamos embora?
- Vamos.
Capão III
O Capão continuava ali. Uma clareira envolta em mata nativa.
O dia de finados sempre tem vento e naquele não teve. O vento traz para o mundo dos vivos as queixas das almas.
Naquela tarde, nem uma folha se mexia nas árvores. Os garotos estavam jogando e Diadora apareceu. Thomáz foi falar com ela, a mão suada encostou com suavidade no rosto de porcelana. Daniel e Douglas fingiram não ver. Mas um dos meninos, por pirraça, gritou:
- Olha a alemoa com o negão!
O sangue de Douglas ferveu, correu com todas as forças pulando sobre Thomáz. A velocidade do garoto trouxe o vento que faltava ao dia de finados. Os movimentos de flexão do corpo de Thomáz jogaram Douglas contra o chão. O impacto provocado pela queda tirou os sentidos do menino. Só não lhe tirou a vida, por que os espíritos, acordados pelo vento, entraram na dança das almas. Dançaram os ancestrais de Thomáz e de Douglas.
Universo,
Diverso.
As almas não têm cores, mas têm passado. Não têm forma, mas têm recordações.
E os povos se levantaram!
Bateram Tambores. Bateram Pratos.
Ritmos africanos. Ritmos germânicos.
Gerações e mais gerações.
Um assobio! Brasileiro!
Um silvo forte. São as bruxas!
Um grito de dor.
Um grito de Morte!
Um grito do Céu e o outro do Inferno.
E
Deus
Desceu.
Soprou vida no sangue unido
De Diadora e Thomáz.
Aprendam!
Numa nova vida.
O fim dos conflitos.
Depende de muito pouco.
Autoria: Fernanda Blaya Figueiró
Publicados na coletânea Escritos da Editora Revolução Cultural
Um abraço,
Fernanda
Capão I
Numa tarde de quarta-feira a gurizada saiu de uma interminável aula de matemática. Com as cabecinhas cheias de números, símbolos e pequenos problemas. Correram direto para o “campinho”. Os meninos divididos em dois grupos disputavam uma bola. E as meninas, sentadas sobre suas mochilas, trocavam enfeites, segredos e doces.
Danilo, Diadora e Douglas chegaram e pediram para brincar junto. Olharam para eles com desconfiança e perguntaram de onde vinham. Danilo, que era o mais velhos dos três irmãos, respondeu que eles haviam se mudado há poucos dias.
Um pequeno silêncio foi rompido por Thomáz com as seguintes palavras:
- Vamos joga! Entra cada um dum lado.
Foi o suficiente para que os irmãos invadissem o campo. Douglas arrasou, driblou meio mundo e na primeira oportunidade virou o jogo para o seu “time”, que vinha perdendo uma partida atrás da outra. Danilo não deixou por menos, mostrou que sabia jogar.
Diadora sentou com as meninas.
Assim que o ônibus chegou a gurizada largou tudo e correu para a parada. Danilo perguntou se poderiam jogar novamente no outro dia.
- Não sei. Respondeu Thomáz. Vocês não vão à escola?
- Aqui não, estudamos em Porto Alegre.
- A gente vai pensar.
Capão II
Danilo estava sentado na ante-sala do presidente do engenho. Trazia as reinvidicações dos produtores de arroz, acordadas na última reunião do Sindicato Rural.
Conhecia Thomáz desde os tempos do “Capão”, quando jogavam bola e capoeira juntos. Ele era um líder já naquele tempo. Conseguiu ascender no engenho comprando parte das ações. Era um estrategista.
Os produtores queriam aumentos, já que os custos dos insumos e financiamento estavam muito mais altos. E o governo vinha importando arroz, destruindo com o mercado interno.
O casamento de Thomáz com Diadora havia sido um desastre. Danilo tinha medo que o ex-cunhado guardasse mágoas.
A recepcionista ofereceu um café a ele, informou que seria recebido em poucos minutos. Algumas lembranças invadiram sua mente: as inúmeras brigas, seu pai não aceitava que Diadora namorasse um homem negro. Enquanto que os pais de Thomáz não aceitavam que ele namorasse uma “Catarina”, e ainda de origem alemã. A briga de Douglas e Thomáz no campinho ficara marcada na sua memória. Tinha sido no final de uma partida de futebol, logo que Danilo e Douglas descobriram o namoro as escondidas da irmã com Thomáz.
A porta abriu quase sem fazer barulho, Thomáz o esperava com um sorriso no rosto.
- Boa tarde, como vai o meu cunhado? – disse Thomaz.
- Boa tarde! – respondeu mais aliviado - Vou bem, quanto tempo?
- Pois é, sente-se. E o velho Shaffer?
- Está ótimo, ele e a mamãe.
- Eu recebi o e-mail do sindicato, mas francamente, as exigências estão pesadas.
Thomáz era um homem direto, não tinha por costume enrolar, sabia o motivo da visita e foi logo se posicionando. Não pretendia ceder muito, sabia das dificuldades que o setor vinha enfrentando.
- Nós precisamos de um aumento.
- Eu sei, mas este índice é insuportável para o engenho. A gente vai ter que chegar a um acordo.
Os dois homens estavam frente a frente, com a devida diplomacia que a ocasião exigia. O diálogo foi direto, impessoal e produtivo. Danilo conseguiu em parte o que precisava e Thomáz conseguiu acalmar os produtores.
Thomáz perguntou por Douglas.
- Ele está bem. Ganhou medalha de prata nas últimas para-olimpíadas.
- Que bom, Diadora tinha me contado. O meu piá é fã dele. Tem em seu quarto várias fotos do tio Douglas.
- O Ronaldo é uma figura.... Acho que por hoje é isso, foi um prazer...
Os dois despediram-se. Danilo saiu com uma boa impressão. Seus medos não se confirmaram, Thomáz parecia estar tranqüilo. Douglas, em compensação continuava remoendo em amarguras. Danilo lembrava de tudo com nitidez: Douglas atacou Thomáz pelas costas, ele, por reflexo, jogou o garoto no chão. Douglas caiu sobre uma pedra, fraturando a coluna. Todo mundo viu que Thomáz não teve culpa, ele era forte e jogava capoeira como ninguém. Antes da briga eram grandes amigos...
- Vamos jogar, pô! Entra cada um dum lado.
Com essa frase ele tinha aberto as portas para os irmãos. Depois da briga as famílias nunca mais se falaram. Diadora estava grávida e os dois casaram sem o consentimento de ninguém. Com o tempo foram ficando amargurados, ressentidos e se separaram. No fundo sentiam-se culpados.
Douglas fez vários tratamentos, mas o dano foi irreversível.
O dano na coluna de Douglas podia ser comparado ao dano nas vidas de todos eles. Todos tinham ficado um pouco paralisados. Os pais não aceitavam a amizade entre as crianças e foram, lentamente, contaminando o pensamento deles com o preconceito e a discriminação. Danilo lembra do olhar dos pais de Thomáz para eles, “Os Catarina”. Os burgueses, almofadinhas... Sempre que iam aos bailes as pessoas ficavam olhando de canto, cochichando. As meninas não aceitavam Diadora. Implicavam com tudo nela, que também tinha sua parcela de arrogância, achava que todos eram provincianos e sem educação. Já seus pais eram agressivos e intolerantes com as pessoas do lugar, não queriam eles brincando com Thomáz por que era “negro”. Quando souberam do motivo da briga nunca perdoaram a filha. Ela estava afastada da família desde então. Ronaldo não conhecia nem os avós maternos, nem os paternos. Era um garoto alegre e não conhecia o preconceito. Sua geração já lidava bem melhor com estas questões. Diadora morava numa cidade grande, era formada em biologia. Estava casada com Arnaldo com quem teve Ziza.
Antes de voltar para “Fora”, Danilo passou na agropecuária. Um grupo já esperava por ele. Queriam saber tudo sobre a reunião, o assunto rendeu horas de discussão acalorada.
Thomáz passou pelo campinho e sentiu uma irresistível vontade de parar. Desceu da caminhonete e ficou olhando para o campo vazio. A grama estava crescida, já que ninguém jogava bola desde que fizeram uma quadra na escola. Não havia mais as marcas do gol, nem as linhas laterais.
Danilo viu Thomáz de longe. Achou estranho e resolveu parar ali também. A cidade tinha crescido, como eles e mudado em vários aspectos.
- O que você está fazendo aí parado?
- Lembrando...
- A gente era feliz e não sabia, não é?
- É. Eu fico pensando se o Douglas vai me perdoar um dia.
- Bobagem, o Douglas teve azar, só.
- Sorte e azar. Ta aí um negócio no qual eu não acredito.
- Eu acredito. Vamos tomar um chope?
- Não, eu tenho que assar um churrasco. O Ronaldo está indo lá pra casa, com toda a turma do futebol. Uma galera! Comem que nem uns loucos.
- Também ele já tá com quase quinze.
- Quinze anos. E parece que foi hoje.
- Dois de novembro, que coincidência. Amanhã fazem quinze anos do acidente.
- No dia dos mortos. Por anos minha avó me culpou por isso, disse que tudo aconteceu por que nós jogávamos bola e brincávamos no dia dos mortos.
- Vamos embora?
- Vamos.
Capão III
O Capão continuava ali. Uma clareira envolta em mata nativa.
O dia de finados sempre tem vento e naquele não teve. O vento traz para o mundo dos vivos as queixas das almas.
Naquela tarde, nem uma folha se mexia nas árvores. Os garotos estavam jogando e Diadora apareceu. Thomáz foi falar com ela, a mão suada encostou com suavidade no rosto de porcelana. Daniel e Douglas fingiram não ver. Mas um dos meninos, por pirraça, gritou:
- Olha a alemoa com o negão!
O sangue de Douglas ferveu, correu com todas as forças pulando sobre Thomáz. A velocidade do garoto trouxe o vento que faltava ao dia de finados. Os movimentos de flexão do corpo de Thomáz jogaram Douglas contra o chão. O impacto provocado pela queda tirou os sentidos do menino. Só não lhe tirou a vida, por que os espíritos, acordados pelo vento, entraram na dança das almas. Dançaram os ancestrais de Thomáz e de Douglas.
Universo,
Diverso.
As almas não têm cores, mas têm passado. Não têm forma, mas têm recordações.
E os povos se levantaram!
Bateram Tambores. Bateram Pratos.
Ritmos africanos. Ritmos germânicos.
Gerações e mais gerações.
Um assobio! Brasileiro!
Um silvo forte. São as bruxas!
Um grito de dor.
Um grito de Morte!
Um grito do Céu e o outro do Inferno.
E
Deus
Desceu.
Soprou vida no sangue unido
De Diadora e Thomáz.
Aprendam!
Numa nova vida.
O fim dos conflitos.
Depende de muito pouco.
Autoria: Fernanda Blaya Figueiró
Publicados na coletânea Escritos da Editora Revolução Cultural
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