Uma nota, uma pessoa distraída, um
menino.
Para minha amiga Susana Araujo de Quadros...
Esta semana aconteceu a
10ª Feira Literária de Viamão, estive na Praça Cônego Bernardes
em frente a Igreja Nossa Senhora da Conceição onde o evento aconteceu. Bem fiz algumas
fotografias e andava de um lado para o outro, com a chuva a “Sala de
jogo de xadrez” veio parar em frente ao nosso stand do CMC e ALVI e
o do Patrôno, o professor Flávio Ledur que esteve o tempo todo presente, o que deu uma vida para a feira. Encurtando caminho na nossa história em
determinado momento, que não lembro em qual dos três dias foi, coloquei a máquina de fotografias no bolso e o troco da venda de um livro, uma
nota de cinco reais. Na minha distração puxei a máquina e nem
lembrava mais do troco. Quando percebi um menino, talvez com onze ou
doze anos, que jogava ou assistia ao jogo de xadrez, não tenho como
precisar, tocou meu braço e me estendeu a nota que havia caido no
chão. Agradeci olhando em seus olhos e tive o impulso, que contive, de dar a ele a nota. Mas imediatamente pensei "se eu der a nota a ele
vou estar corrompendo seu ato justo e honesto de devolver o troco que
caiu no chão". Cinco reais daria para ele comer um sanduiche e tomar
um refrigerante. Ele não pediu o troco, seu ato foi gratuito e
verdadeiro. Simplesmente voltou ao jogo. Então acredito que fiz bem
em conter a minha vontade de premiá-lo por fazer o
que era certo. Quem sabe nos olhos limpos do menino não está um
novo lider como o que o mundo perdeu nesta semana? Então todo o
esforço de fazer uma feira de literatura, de ensinar xadrez, de ter
livros, palestras, contação de histórias, teatro, atores, de ter
cultura na praça se justifique. Esse menino vai ter muitos cinco
reais de retorno do universo. Faz o que é certo por ser certo e não
para se beneficiar. Hoje discutisse a vida de Mandela, assisti ao
filme sobre sua biografia em Joanesburgo na semana passada em inglês,
sem legendas, então assitirei novamente assim que aqui for lançado.
A cena mais bonita do filme para mim é o momento em que há a
transição entre a vida do menino e a vida do homen. No rito da
passagem. No correr livre no campo aberto. Uma vida longa e cheia de
desafios o esperou daquele ponto em diante. Cheia de vitórias, de
derrotas, de humilhações, de reverências. Entre as muitas
entrevistas que assisti uma me chamou a tenção, não sei bem em que
canal e isso pouco importa. Mas um entrevistado que também não guardei o nome disse algo que me marcou, parecido com isso: “ a
corrupção não foi um problema na África do Mandela já
presidente, a corrupção é um problema de todo o sistema. A
aproximação entre dinheiro e política é o problema.” Quem
corrompe são as grandes empresas, são as pequenas pessoas do
dia-a-dia do mundo. A política já encostou na igreja e não foi bom
nem para uma nem para a outra esta aproximação. Agora a política
está de mãos dadas com o dinheiro, o próprio entrevistado diz que
talvez sempre tenha sido assim. Religião, Política, Dinheiro. É
preciso amar a Deus, para quem nele acredite, como o menino que
estende a nota, para quem não acredita é preciso respeitar a crença
do outro e ser respeitado em sua ideia da não existência dele,
como o menino que volta ao jogo. É preciso atuar na Polis como o
menino que diz olha você deixou esta nota cair, tenha mais cuidado,
você está sujando o chão com esta nota, ela pode te faltar um dia,
ela é um símbolo. A nota é preciso respeitá-la e saber o que ela
significa, são simples cinco reais, mas eles podem corromper e podem
beneficiar. Se o dinheiro do mundo fosse bem distribuido ele poderia
salvar a rainha e não colocá-la em xeque mate. Nada sei de xadrez,
pouco sei da política, do dinheiro, da religião. Mas a praça e a
igreja foram testemunhas desta historinha que agora eu conto
para vocês. Um milhão de pequenas histórias estavam acontecendo e
algumas passaram desperecebidas, algumas aconteceram no palco
principal, outras nos palcos menores e até fora das cortinas
imaginárias feitas de meio-fio. Estávamos na praça quando soubemos
que Mandela faleceu e ele deu mais um linda lição. Seu povo
comemora com alegria ter tido um dia a presença desta linda pessoa,
seu povo canta e dança em sua homenagem. Então por mais moderna que
a África seja ela mantém a essência de seus ritos de passagens. O
ser essencial da África está em nós esta semana. Está no foco da
nossa atenção. Se eu não tivesse colocado a nota com a máquina
esta histórinha não existiria, então estava certo. Tudo deu certo.Encontrei minha amiga Susana e ela disse: "Estou esperando o que tu vai escrever no blog sobre o Mandela". Isso me encheu de alegria pois eu nem sabia se deveria ou não escrever pois tanta coisa bonita está sendo dita sobre ele. Por isso este texto vai para ti,Susana, com carinho!!
Fernanda Blaya Figueiró
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