A diferença entre vandalismo, terrorismo e exercício da cidadania.


A diferença entre vandalismo, terrorismo e exercício da cidadania.


Tudo depende de quem conta a história e de onde ela acontece: a população ateia fogo em protesto nas marginais é terrorismo; os jovens estudantes da classe média depredam o centro da cidade é exercício da cidadania; alguns são presos é vandalismo. Acho que a democracia brasileira vai passar por uma prova de fogo nesta questão do “Manifesto da Passagem”. O que essa gurizadinha quer? Além de ter uma boa história para contar a seus descendentes? “Durante o governo Dilma nós tomamos as ruas e protestamos contra o terrível aumento do valor da passagem, eu levei um tiro de bolinha de gude e corri pelas ruas fugindo dos cavalos da brigada e de suas flamejantes espadas afiadas. Bombas de efeito moral criavam um clima psicodélico e naquela batalha vencemos: 0,25 centavos de real ganho por cada manifestante. Para comemorar assistimos ao estonteante nascer do sol numa Rave que durou três dias e três noites, de muito sexo, suor e cerveja. Os quarentões e demais a este ponto já estão muito chateados porque três dias de festa depois de uma longa peleia só para quem tem dezoito anos. Plagiando Maiakovski e Brecht: “Primeiro As Forças Armadas foram chamado para pacificar a favela, eu não sou favelado, não fiz nada; depois foram chamados para pacificar os índios, eu não sou índio, não me importei; depois foi para conter os manifestantes, eu não sou manifestante, aqueles meninos não são meu filho; agora a conjuntura internacional mudou e o exército bate a minha porta.” Não que eu realmente ache que é para tanto, mas pergunto que diferença há entre os atos de queimar ônibus com pessoas dentro para libertar presos dos que tomam as ruas esta semana? Qual é o pensamento que sustenta suas ações e de onde vem a motivação deles? Até que ponto estão conscientes do que seus atos representam? Ontem eu fui ao oftalmologista reclamar de um tremelico no olho e ele me disse o que sempre ouço dos médicos: é ansiedade. Então me perguntou: o que lhe aflige no momento? Nada especificamente respondi, mas a pergunta ficou. O que me aflige? A falta de sentido da atual realidade, uma certa descrença nas questões da humanidade, na capacidade de construção de um mundo melhor. Uma degradação acelerada das estruturas no sistema econômico e social. Uma falta de entendimento do que está por vir. O mundo transferiu a guerra para o mundo virtual e o Brasil ainda gatinha construindo barricadas e preso a uma retórica antiquada e superada. Preço da passagem de ônibus? Ônibus? Os estudantes já pagam a metade ou tem passe livre em alguns lugares, o estado paga a passagem, as empresas pagam a passagem, os idosos não pagam, pagante comum deve ser uma meia dúzia. A gurizada quer limite. Não tem na escola, não tem na universidade e não tem na família. Eu vejo bem, não tenho nada fora um leve embaçamento no olho esquerdo, mesmo sendo o direito que tremelica. Fico pensando na real dimensão de imagens tão parecidas que assistimos na televisão como na Turquia, na Espanha, Grécia, Inglaterra... Será que são assim como aqui ou são mais graves? E como são intermediadas pelos governos. Não sou contra protestos só contra ações impensadas e infantis.

Fernanda Blaya Figueiró   

Comments

Anonymous said…
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