Energia perdida?
Eu ia começar este
texto dizendo que tenho uma bela Dog Alemã chamada Bessi Patrolinha,
mas ter não é a palavra correta. Bessi tem a avançada idade de
treze anos, para um cão de grande porte significa estar aqui a mais
tempo do que a expectativa de vida. Em novembro de mil novecentos e
noventa e oito estávamos procurando um cão de guarda pois
mudaríamos de um apartamento para nossa atual casa, tínhamos uma
ovelheira, Gorducha da Água Doce, que só faltava falar. Fomos até
a Morungava, um bairro de Gravataí, quando chegamos o portão foi
aberto, entramos e fomos cercados por uma enorme família de dogues.
Estávamos em dúvida se ficaríamos com um dos cachorrinhos e a
proprietária nos olhou e disse: - Vocês não vão levar um dos
filhotinhos? Nos olhamos e a Bessi estava entre nossos pés puxando e
mordendo os cordões dos sapatos. Gorducha olhava apavorada de dentro
do carro então precisávamos decidir logo, acho que fomos escolhidos
por ela. Com a singela quantia de 150, 00 reais ( acho que o Brasil já
tinha esta moeda) colocamos a “filhotona” no porta-malas.
Gorducha andava há anos de carro e nunca havia descoberto que o
porta-malas era ligado a frente por uma “portinha”, Bessi
precisou de dois minutos para dar uma cabeçada e abrir o forro,
assim descobrimos seu temperamento forte e imperativo, mas
profundamente meigo e fiel. Com o tempo Gorducha nos deixou e muitos
outros cães dividiram a vida conosco e cada um teve a sua história,
sua personalidade e suas próprias características. Mas todos foram
fiéis e nos amaram incondicionalmente. Na semana passada nossa
“velhinha” teve uma desidratação devido ao forte calor, ficou
cansada, lenta, sem conseguir se levantar sozinha, mas lutando
bravamente pela vida. Enquanto estou escrevendo este texto ouvi seu
chamado e fui levá-la até a grama para fazer suas necessidades,
primeiro puxo seu dorso até que firme as patas dianteiras, depois
empurro seus quartos para que fique em pé e assim seguimos. Até
quando? Não sei, mas com a Bessi aprendi a viver a vida passo a
passo, ela sempre exigiu muito da vida e sempre conseguiu tudo de
“seus humanos”, retribuindo com cuidado, amor, carinho e
dedicação. Nunca deu um passo para trás se adquiria um privilégio
não abandonava mais, seus paninhos, sua cama dentro de casa, suas
“manhas”. Vou sentir muito a sua falta o dia em que não estiver
mais aqui, mas sei que lá no céu dos cachorros vai ser uma correria
danada para deixar tudo como a Bessi exige. Algumas pessoas tem
dificuldade em entender a relação entre as pessoas e seus animais
de estimação. Somos seres sociais e nossa sociedade está
deficiente, está deformada pela competição excessiva, o
individualismo e o egocentrismo. Recebemos muitas mensagens, que na
minha opinião contradizem nossa natureza, de que para ser feliz é
preciso ser “autônomo, livre, poderoso, forte, independente”. O
Homem da atualidade é assim... a Mulher é assado. Ficamos muito
ocupados em tentar ser “de determinada forma” e acabamos não
sendo nada. Já a nossa relação com os animais é autêntica, eles
são quem são e nós podemos ser quem realmente somos: algumas
vezes amorosos outras irritados e sem paciência; algumas vezes
alegres, outras tristes. E nossos amigos animais sabem disso e não
nos cobram falsas atitudes. Bessi aos poucos perde sua energia vital
e uma hora vai partir, mas até lá vai vivendo com sabedoria. Não
tem como explicar, para quem não entende, esse amor.
Fernanda Blaya Figueiró



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