Um poema

Obra Prima

Deve ser horrível sobreviver a uma Obra Prima.
Essa arte derradeira deve alterar os sentidos de seu autor
Ou quem sabe do instrumento que ela utilizou para se tornar “Entendimento”.
Acho um grande erro pensar que estamos em Evolução.
A mulher que eu sou contém a Vida e a Morte, a mulher primitiva e a evoluída.
Todas elas abrem os olhos comigo pela manhã.
Acho um erro de interpretação limitar o que não tem limite.
Como desviamos o olhar para abismos e profundidades, buscando sentidos perdidos. Sinto-me como um bloco de pedra enterrado na profundidade do solo, base de alguma coisa muito maior, que não posso ver, mas posso sentir o peso.
Neste momento o sol banha o rio que existe banhando a cidade. Os pombos namoram no parapeito de um velho casarão, onde uma figueira insiste em se desenvolver entre as fendas do concreto. A rua nada sabe deste complexo desenrolar.
Eu trilho os mesmos caminhos que todas as mulheres já trilharam e que continuarão trilhando. Depois da esquina talvez eu nasça um homem e trilhe o mesmo caminho que o louco irmão que acabou de passar está fazendo. Todo este andar mantém o velho sulco.
Se hoje acessamos toda esta tecnologia é porque já era tempo de lermos este capítulo. Se o óleo chora a tristeza da natureza é porque é hora de chorarmos também.
Não temo nada, tudo anda no compasso certo.
Não aceito mais o conceito de “Evolução” só o de “Eterno” .
Todas as pessoas do mundo são eu, preciso encontrar a beleza de cada uma para amar por inteiro.
Se ofendi uma de minhas partes, por alguma falha de entendimento, agora quero poder olhar para ela e encontrar Ternura, mesmo que as odiáveis também sejam eu. E quero poder sentir um pouco desse ódio para superá-lo. Mesmo que ache um erro conceitual a superação. Não preciso superar nada, preciso deixar acontecer.

Porto Alegre 8 de junho e Viamão, 9 de junho
Fernanda Blaya Figueiró

Comments

joaocony said…
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