Crônica

Um verso de amor

“O amor é um pássaro rebelde
Que não se pode aprisionar” Habanera-Bizet

Mil prosas do cotidiano tentam de tudo para apagar a beleza da poesia. Estas palavras emendadas boicotam o silêncio que existe entre um verso e o outro. Tive um lapso de memória, depois lembrei de tudo e não era nada que importasse, mas mesmo assim a breve ausência da informação me deixou uma sensação de vazio. Passei a gastar a tinta da caneta para desbloquear as emoções e tudo o que escrevi não servia para nada, não podia ser lido para uma platéia, nem poderia gerar um livro, um filme, um curta. Não podia ser fotografado ou visualizado. Não tinha valor monetário. Nada que não possa ser convertido em cifras tem importância neste mundo. O amor, a dor e mesmo a solidão, só ganham atenção quando convertidas em produtos. Se eu fosse investidora compraria ações de pobreza, porque parece que nada no mundo dá mais dinheiro do que a pobreza humana, material ou espiritual.
O produto da minha passagem pela vida é essa prosa feiosa, que ninguém quer ouvir. Quero manter minha mente aberta, livre de memórias ruins, vazia das maldades antigas. Para ser grande é preciso amar incondicionalmente. Sendo que este incondicionalmente já é uma condição.
Para amar é preciso manter o olho bom, aquele que vê no outro o que ele mantem de melhor. Não aquele que chega nas casas e procura a sujeira escondida, o mofo causado pelo tempo úmido. O olho que entende que o mofo também é vida e tudo é efêmero, este é o olho do amor. Fica dentro do peito. Semana passada contei a história do Patinho Feio em belo lugar, perguntei ao meu atento público, de pequenos ouvintes, qual o livro que mais haviam gostado de ler e um menino de olhos vivos me contou sobre um livro chamado “Filho do coração”. Não conheço este livro, mas li em seus olhos que se tratava de uma autêntica história de amor. Aquele menino estava contando uma história viva de amor. Falava sobre este pássaro rebelde que não se pode aprisionar. É preciso saber encontrar o cisne que existe em cada um e aquele menino havia encontrou o seu. A luz em seus olhos refletia isso. Ele falava de um sentimento que não se pode mensurar, não se pode quantificar ou comprar e vender. Agadeço por ter testemunhado este sublime momento de verdadeira doação. Esta onda de consumo um dia há de passar e a arte vai voltar a abrir as asas e voar livremente, migrando de um ponto ao outro do planeta, e o amor será livre de condições.


Viamão, 21 de junho de 2010.
Fernanda Blaya Figueiró

Comments

Anonymous said…
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