Encontrei

Hoje senti vontade de reler um texto meu, publicado no meu livro Ano Novo e Textos escolhidos, já esgotado, e não encontrava o arquivo. Por sorte havia publicado na Retrans e acabei encontrando um poema antigo e me dei conta que este texto A foto do Maestro é de 2001, faz tempo, mas ainda considero meu melhor conto.



Libertador

Foi descobrir que não tenho que mudar nada.
Não carrego nenhuma missão divina, ou apostólica.
Sou pó e sempre serei.
Não preciso mudar o mundo. Ele muda sozinho.
Também não preciso me iludir com nada... Tudo é sempre igual.


Agora caminho mais leve pelas ruas
Talvez depois da chuva nada mais seja assim.

Fernanda Blaya Figueiró



A foto do Maestro

Entrei só para tomar uma xícara de café e me deparei com
aquela figura sombria, de olhar inquisitivo.
Expresso com creme.
Os ossos da face realçados pela magreza revelavam
alguma coisa estranha, perturbadora. Uma foto antiga,
amarelada.
Ao sair dali, tinha pouca coisa a fazer. Pelo menos, achava
que tinha.
Caía uma chuva forte, a praça alagou em poucos minutos.
Enquanto as outras pessoas fugiam da chuva, resolvi
aceitá-la, os pingos gelados foram aos poucos diminuindo,
virando em chuvisqueiro.
Entrei no elevador e vi: Refletido no espelho, o mesmo rosto com ossos saltados do retrato .Onde estava minha face rosada e robusta?
Aquela imagem havia entrado em mim?
Foi a impressão que me deu de que aquela imagem havia
se apossado de minha pessoa, de mim.
EU.
Com a chave que havia em minha mão, abri a porta do
número 915. Um apartamento revestido de carpete em tom pastel,
paredes claras, poucas mobílias, limpo, frutas selecionadas
e bem arranjadas sobre uma cesta de vime.
Minha figura lavada pela chuva parecia estarrecida, sem
reação.
Por que aquela imagem havia me causado aquela impressão de possessão, de invasão? Não senti fome, nem frio. Adormeci tranqüilamente, sem receio.
Acordei com a imagem dele.
Os ossos do rosto saltados, os olhos fixos em mim.
Ele estava no meu quarto Seu rosto claro sobressaía na escuridão. Não dizia nada, não se mexia, mas estava ali.
Incontestavelmente estava ali. Meu corpo ficou colado ao colchão, não consegui reagir, senti um formigamento na espinha, como uma descarga que descia por minhas pernas e me imobilizava.
O que poderia querer de mim? O que quer de mim?
As mãos delicadas do pianista tocaram a terra seca, a pele macia não estava acostumada com a aridez.
Temi os temores errados. Não posso mais morrer.
Augusto estava sentado nos degraus. O vento frio da tarde de inverno embaralhava seus cabelos, o rosto magro e envelhecido do maestro trazia marcas de sofrimento.
- Gunther, não devíamos ter vindo, não faz sentido.
Ontem a vida fez uma volta completa para me mostrar que eu quis as coisas erradas.
Os sinos dobram solenemente, aos poucos, os fiéis entram na Igreja, tomados pela dor, beijam as chagas do Cristo em frente ao altar e rezam, pedindo piedade.
Uma estranha alegria me alcança. Eu já morri.
Ensaiavam Bethovem, para a cerimônia pascal.
Nos fundos da Igreja, o pianista e o maestro tentam entender. Haviam se despedido dela há quatro anos, em frente ao salão da Pontifícia e nunca mais, um longo silêncio, até um garoto encontrar uma pequena bolsa de festa.
Eu queria saber mais sobre a foto, o maestro. Essas imagens todas passeavam pelas paredes do meu quarto. Augusto, o maestro, Gunther, o pianista, quem seria a mulher desaparecida? Eu?

Fernanda Blaya Figueiró

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